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Volta às aulas em tempos de pandemia chama a atenção para o múltiplo uso do quarto dos estudantes

Ricardo Alexandre - 2 mar 2021
Um início de ano diferente: Como tirar o melhor proveito de uma situação muito longe da ideal.
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É tempo de volta às aulas – embora seja difícil definir que “volta” é essa e como serão as aulas num país ainda com muitos casos de covid-19 e ritmo escasso de vacinação. Algumas cidades decidiram retomar os encontros presenciais, outras não. Algumas escolas decidiram manter o ensino à distância, outras criaram diferentes grades de revezamento para seus alunos. Muitos pais temem defasagem e até evasão escolar, especialmente na rede pública de ensino. Seja qual for a situação da sua cidade ou da sua família, um desafio é comum: alunos e pais de estudantes precisam descobrir como tirar o máximo resultado possível de uma situação que está longe da ideal. E isso passa, necessariamente, pela maneira como nossos filhos dormem, como repousam e como aproveitam o quarto – que agora se transformou em lugar de descanso e, ao mesmo tempo, sala de aula.

“A intelecção e a interpretação dos assuntos das aulas estão diretamente relacionadas à qualidade do sono do estudante”, explica Salomão Carui, especialista em otorrinolaringogia/medicina do sono. “Na verdade, uma única noite mal dormida pode inibir até 70% da potência do nosso sistema imunológico, por exemplo. No campo neurológico, que engloba o aprendizado e o desenvolvimento, funciona igual.”

“Uma boa noite de sono aguça a capacidade de memorização e interpretação, da mesma forma que, quando o sono é inadequado, essa capacidade diminui. Pior ainda é quando isso se torna um hábito. O efeito deletério é muito maior.”

E há muito mais por trás da noção de “sono inadequado” do que simplesmente a quantidade de horas que nossos filhos dormem antes das aulas. Espaços inadequados, turnos escolares anti-naturais, falta de acesso à internet e mesmo a superexposição à tecnologia. Neste início de 2021 muito da nossa relação com conexão e desconexão tem se revelado problemática – especialmente para nossos filhos.
Nos últimos anos, uma das grandes ativistas da questão do sono tem sido a escritora e empresária Arianna Huffington. Em seu famoso livro The Sleep Revolution: Transforming your Life, One Night a Time (“A Revolução do Sono: Transformando Sua Vida, Uma Noite de Cada Vez”, 2017, Harmony Books) ela dedica um generoso espaço para tratar do déficit na qualidade de descanso entre estudantes. Ela relata uma experiência desenvolvida na Faculdade de Dartmouth, New Hampshire, pelo professor Andrew Campbell, que monitorou um grupo de estudantes e descobriu que o horário médio em que iam dormir era às 2:30 da manhã.

“Não é de se admirar”, escreve Huffington em seu livro, “que uma pesquisa de saúde Dartmouth tenha revelado que mais da metade dos estudantes havia enfrentado dificuldades com o sono no ano anterior.”

“O calouro Kristin Winkle diz ‘eu acho que o sono é inimigo da diversão ou da produtividade’. O calouro Rob Del Mauro citou a síndrome FOMO (“fear of missing out” ou “medo de ficar de fora” das atualizações e notícias das redes sociais) como a razão pela qual o sono é sacrificado, chegando a chamar o sono de uma ‘prática tabu’ na faculdade.”

Outra discussão importante diz respeito aos chamados cronotipos – ciclos fisiológicos que determinam o período do dia em que cada um de nós é mais ativo. É uma questão hormonal e está na carga genética de cada um de nós: o horário que a nossa glândula pineal libera a melatonina é o horário em que você de fato descansa melhor, e isso determinará o horário em que você estará mais desperto.

“Isso é fruto da evolução e remonta ao tempo em que morávamos nas cavernas”, diz o Salomão Carui. “Quando alguns de nós dormíamos protegidos, nas cavernas, no breu absoluto, e outros vigiávamos nosso grupo contra animais ou invasores. Isso determinou nosso mapa genético e o fato de que até hoje o melhor horário para que eu durma e acorde seja diferente do horário do meu filho, que pode ser diferente do irmão dele.”

O cientista inglês Matthew Walker é professor de neurociência e psicologia na Universidade da California e autor do livro Por que nós dormimos: A Nova Ciência do Sono e do Sonho (2018, Intrínseca). Tanto em seu livro como em suas palestras, Walker tem falado muito a respeito dos diferentes cronotipos e, consequentemente, se tornado um dos principais nomes do movimento mundial que discute o melhor horário para o início das aulas. Enquanto em países como Brasil e Estados Unidos o sinal costuma tocar por volta das 7h, Suécia, Finlândia e Inglaterra têm experimentado projetos, em diferentes amplitudes, que propõem que as aulas comecem às 8h ou 9h – eventualmente até mais tarde.

Estima-se que 30% da população mundial seja de cronotipo matutino (que “funciona” melhor pela manhã e descanse entre as 22h e as 6h), 30% seja vespertino (cuja melatonina somente é liberada às 6h e, portanto, deveriam dormir entre as 3h e as 11h) e 40% seja de cronotipo intermediário (o pico de melatonina ocorre às 3h e o horário de sono ideal vai da meia-noite às 8h). Forçar alguém a se adaptar a um horário é igual a reduzir seu desempenho e, de fato, atentar contra sua saúde: “Vamos imaginar uma pessoa de cronotipo intermediário que tenha dormido à meia-noite e acordado às 6, para uma reunião”, propôs Walker em uma entrevista. “Quanto tempo de sono essa pessoa perdeu? Foram duas horas das oito que precisava dormir – ou seja, 25% do seu tempo de sono. Essa resposta está correta, em certo sentido, mas está errada também, porque ela perdeu também quase 80% de seu sono REM, porque aquela fase final do seu sono é a fase mais rica da noite”. É na fase REM (do inglês “rapid eyes movement”, “movimentos rápidos dos olhos” que sonhamos, que o cérebro entra em alta atividade e produz diversos hormônios). É desta fase, importantíssima, que o personagem imaginado pelo Dr. Walker está sendo privado. Assim como centenas de milhões de alunos em todo o mundo – em especial os adolescentes, cujo desenvolvimento do cérebro acarreta mudanças fisiológicas importante, também no padrão de sono e na predisposição para ficar acordados até tarde. E o déficit de sono pode levar não apenas a um mau rendimento escolar, mas à depressão, desânimo e ansiedade.

Todos esses assuntos têm sido tratados por cientistas e educadores nos últimos dez anos. Mas desde 2020 temos um outro inimigo, mais devastador e urgente: uma pandemia, que colocou pais e alunos em regime de home-schooling, ensino à distância e aulas por meio de celulares, tablets e laptops. O quarto, que era o ambiente de descanso, tornou-se a nova sala de aula.

“Infelizmente, estamos numa situação atípica, uma pandemia que impactou a forma como a raça humana vivia”, lamenta dr. Carui. “O que nós recomendamos, especialmente nesse caso de aulas on-line, é que pais e filhos invistam na criação e na manutenção de uma rotina.”

“O estudante deve continuar tomando seu banho logo depois de acordar, deve vestir o uniforme, como um ritual mesmo, para assistir as aulas on-line, exatamente como se fosse sair. Se tiver um cômodo na casa que possa ser transformado em escritório, tanto melhor. É o mesmo caso do profissional que perdeu o emprego, e não pode se entregar à depressão. Ele precisa acordar cedo, se barbear, tomar o café, enviar currículos, fazer ligações, manter-se ativo. Da mesma forma, assistir às aulas na cama, de pijama, realmente não funciona.”

E qual seria o quarto ideal de um estudante em 2021? Dr. Carui responde: “Eu orientaria a colocar uma divisão clara entre o espaço de dormir e o espaço de estudar. Lugar de estudar é para ficar acordado, concentrado, focado. A cama deveria ficar fora do campo de visão, se possível, para não ‘convidar’ para o descanso. Janelas anti-ruído, especialmente em grandes cidades, são importantes tanto na hora de dormir quanto na de estudar.”

Nesse contexto, e como uma marca de produtos premium de sono que entende e promove o impacto de uma noite bem dormida em diversos setores da nossa vida, a Zissou se vê envolvida nessa discussão para muito além da oferta de produtos: “Precisamos pensar no ecossistema do quarto como um todo”, afirma Ilan Vasserman, da Zissou. “Essa é a motivação para, por exemplo, trazermos o próprio cliente para o processo de desenvolvimento de produtos. Nesses workshops nós conseguimos entender o comportamento das pessoas, entrar no íntimo de seus gostos pessoais e necessidades em relação ao quarto, e traçar estratégias para desenvolvimento não só de produtos ideais de cada categoria para uma experiência espetacular de conforto, mas conteúdos que reforcem que nosso colchão, travesseiro, roupa de cama são o ponto de partida (extremamente importante) para a ‘redefinição da relação com o sono’, que carregamos em nosso propósito.”

Como um otorrino, Dr. Carui não deixa de recomendar atenção com carpetes, cortinas e ar-condicionado, que podem desencadear problemas alérgicos e respiratórios. Que, claro, se busque o mesmo “breu das cavernas” dos nossos antepassados para dormir adequadamente, e sem luzes de eletrônicos. Que se respeite nosso relógio biológico.

E, acima de tudo, que o sono seja visto como um investimento na educação das nossas crianças e adolescentes.

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