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Viajar pelo Brasil nem sempre significa conhecer o Brasil. É possível visitar a Amazônia, por exemplo, sem estabelecer nenhuma relação com quem a protege, vive dela e preserva seus saberes há gerações.
A Vivalá convida os viajantes a inverter essa lógica: conhecer novos lugares a partir do olhar e da vivência das comunidades que os habitam.
Segundo o cofundador Daniel Cabrera, a empresa de turismo sustentável opera em cerca de 30 territórios distribuídos por 15 estados e todos os biomas brasileiros, em parceria com aproximadamente 1.600 famílias.
“A gente quer que a nossa visão seja boa para quem viaja, para quem recebe os viajantes e para o planeta”
Desde 2015, 8,5 milhões de reais foram injetados diretamente nas economias locais através da Vivalá. Cerca de 35% de tudo o que a empresa vende retorna às comunidades por meio da contratação de serviços de hospedagem, alimentação, transporte e oficinas.
(Esses e outros dados podem ser conferidos no primeiro relatório de sustentabilidade da Vivalá, que acaba de ser publicado.)
Prestes a completar 11 anos, a Vivalá nasceu a partir do TCC de Daniel e Pedro Gayotto, oferecendo experiências de volunturismo.
Com o tempo, eles perceberam que havia demanda por outras formas de se conectar aos territórios e passaram a investir no turismo de base comunitária, em que os viajantes conhecem de perto a realidade de populações tradicionais.
Nesse modelo, a comunidade define como a atividade turística será conduzida, o que pode ser compartilhado e como a renda será distribuída. A cargo da Vivalá, a curadoria dos destinos segue uma metodologia própria, construída ao longo dos anos:
“A gente começa pesquisando os atrativos naturais e culturais, a logística de acesso, necessidade econômica e, principalmente, entendendo se o turismo faz sentido para os moradores daquele local, se eles têm interesse em participar”
Depois da escolha dos territórios, a empresa oferece formações — em temas como precificação, marketing e atendimento — para que os moradores fortaleçam seus negócios e ganhem autonomia.
“Quando se fala de comunidade tradicional, no geral, tudo que a gente leu e aprendeu foi escrito por quem não pertence a esses grupos, que não tiveram e continuam não tendo essa oportunidade de contar suas próprias histórias”, diz Daniel. “Então, para a gente é muito importante que nessas experiências eles sejam os protagonistas.”
Na expedição Amazônia Alter do Chão (PA), por exemplo, os viajantes passam uma noite em uma pousada local do distrito e duas na Pousada e Redário Abílio e Família, na comunidade ribeirinha de Maguari, dentro da Floresta Nacional do Tapajós.

Viajantes da Vivalá no rio Tapajós (Foto: Divulgação/Vivalá).
Lá, participam de atividades como uma oficina de artesanato, uma trilha até uma samaúma milenar (a árvore é apelidada de “Vovozona”) e a piracaia, ritual culinário em que peixes frescos são assados na brasa à beira do rio. Experiências que mostram como o turismo de base comunitária gera renda mantendo a floresta em pé.
“O seu Abílio até conta, no nosso vídeo institucional, que todo ano a comunidade derrubava árvores para poder sobreviver — e foram entendendo que o turismo era uma oportunidade muito melhor”
A lógica se repete em outros roteiros. Na Amazônia Rio Negro (AM), a Vivalá trabalha desde o início com a família de Nilde Silva, em Iranduba (AM), dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro.
“A dona Nilde, junto com sua família, gerencia o hotel de selva Caboclos House. Ano passado, a gente ficou muito feliz de ver que ela foi destaque na mídia e contou que está faturando 2 milhões de reais por ano”
No Jalapão (TO), os viajantes ficam hospedados no Quilombo Mumbuca, conhecido pelo artesanato em capim-dourado, priorizando, para além da visita aos atrativos naturais, a convivência com a comunidade.

Cerimônia tradicional na Terra Indígena Kariri-Xocó (Foto: Divulgação/Vivalá).
Já nas imersões indígenas, realizadas em parceria com seis etnias presentes em estados como Acre, Amazonas, Alagoas, Mato Grosso e São Paulo, os viajantes entram em contato com a cultura ancestral desses povos e podem participam de experiências como rituais, pintura corporal e cerimônias tradicionais, como no caso da Terra Indígena Kariri-Xocó (AL).
Para quem curte aventura, há expedições de trekking, como a do Pico da Neblina (AM), realizada com apoio do povo Yanomami.
No âmbito escolar, a Vivalá passou a oferecer o volunturismo em programas educacionais. (Para pessoas físicas, o serviço continua sendo oferecido em parceria com a Exchange do Bem.)
“Entendemos que seria muito legal se o voluntariado pudesse fazer parte do processo de formação de crianças e adolescentes”, diz Daniel. “Hoje atendemos colégios como Anglo, Maple Bear, Santo Américo, Waldorf, entre outros. E também universidades internacionais, principalmente dos Estados Unidos, como Columbia e MIT.”
Os programas corporativos são voltados a projetos de impacto e imersões para colaboradores. Um exemplo: a Vivalá ajudou a Natura a estruturar, junto às 51 comunidades que fornecem insumos para seus cosméticos, atividades voltadas à diversificação de renda, como o turismo.
“Na época da COP30, organizamos, junto com essas comunidades, uma estrutura para receber o time da Natura e outros stakeholders, no Pará. E agora estamos ampliando esse trabalho para outros locais”
Já para o Itaú, o trabalho envolveu viagens de aprendizado. “A gente levou 50 executivos de ESG e de empresas convidadas para conhecerem mais sobre a biodiversidade, as startups e os negócios de impacto na região amazônica.”
Outro braço da operação é o Instituto Samaúma, criado há cerca de três anos. Entre suas iniciativas está o projeto Caminhos Sustentáveis.
Com apoio de parceiros, como o Instituto Bancorbrás, a iniciativa levou, em 2024, 400 crianças de periferias de Brasília, Belo Horizonte e São Paulo para conhecer unidades de conservação, comunidades tradicionais e territórios indígenas. Enquanto isso, jovens indígenas tiveram acesso a experiências fora de seus territórios, como ver o mar pela primeira vez.
“Agora, vamos propor dois projetos via Lei Rouanet, que somam 2 milhões de reais, para impactar 30 mil crianças de todas as macrorregiões brasileiras tanto com projetos presenciais quanto virtuais, em que crianças menores poderão conhecer os biomas brasileiros por meio de óculos de realidade aumentada”
O instituto também realiza capacitações, projetos de consultoria e diagnóstico. Entre os trabalhos estão um estudo sobre etnoturismo para o Governo Federal e uma consultoria para o governo do Tocantins voltada ao uso de recursos do BID no turismo.
Mais de 6 mil pessoas já viajaram com a Vivalá. Segundo Daniel, ainda há muito espaço para crescer. “O Brasil tem uma vocação gigante para o turismo sustentável e essa área está só começando, mas pode gerar muito impacto positivo.”
De olho no futuro, a empresa pretende expandir sua atuação para outros territórios e desenvolver novas vivências por meio de parcerias, além de ampliar os programas escolares e corporativos.
Outra meta é atrair mais estrangeiros, que atualmente representam 7% dos clientes. “Costumo dizer que o Brasil se parece mais com uma pequena cidade no interior do Amazonas do que com Rio e São Paulo. E quero que eles conheçam essa realidade.”
Para o público brasileiro, o objetivo é fortalecer o sentimento de pertencimento:
“O Brasil tem a maior biodiversidade do planeta. A gente quer que as pessoas vejam cada vez mais valor nessa conexão com o território e voltem das nossas expedições com o discurso ambiental e social mais aguçado”
Entre as inúmeras lembranças desses quase 11 anos de operação, Daniel guarda com carinho uma experiência vivida com o povo da aldeia Shanenawa, no Acre.

O casamento de Daniel e Luiza realizado pelo cacique Teka na aldeia Shanenawa (Foto: arquivo pessoal do empreendedor).
Depois de contar ao cacique Teka que se casaria em breve, acabou surpreendido com um convite para que o líder local realizasse uma celebração para os noivos também ali.
“Achei que seria algo simples, eu e minha noiva, no pôr do sol, e o cacique falando umas palavras bonitas. No dia, a aldeia toda se mobilizou, tudo estava enfeitado. Foi uma cerimônia linda. Sou muito grato pela oportunidade de conhecer pessoas tão bacanas, que me ensinam tanto.”
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