A partir de uma “pulga atrás da orelha”, ela transformou a escuta em instrumento de trabalho para promover impacto socioambiental

Maisa Infante - 20 maio 2024
Luciana Sonck, cofundadora da Tewá 225.
Maisa Infante - 20 maio 2024
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Num país de dimensões continentais, onde 215 milhões de pessoas convivem em seis biomas com características diversas, obviamente as demandas e necessidades são diferentes. E não há ninguém melhor para falar sobre suas necessidades do que as pessoas ou, no jargão sociológico, o território.

É nesse lugar que a consultoria Tewá 225 atua, com o objetivo de ampliar a participação social nas tomadas de decisão — seja para construir uma política pública, definir os rumos do país ou definir os rumos de investimentos privados.

Para Luciana Sonck, 35, fundadora da Tewá 225, o mais importante nesse processo é garantir que as pessoas entendam o que está sendo proposto para que não sejam apenas um número.

“Faz muita diferença que a gente entenda a participação social efetiva como aquela em que as populações estão politizadas o suficiente, entendendo o que aquilo representa e o potencial impacto que tem nas suas vidas para que elas realmente consigam participar da tomada de decisão.”

Graduada em sociologia e mestra em planejamento e gestão do território, Luciana atua com a temática de gestão territorial há 10 anos. Ela conta que teve duas motivações para empreender. Uma foi colocar em prática aquilo que estudava na teoria. A outra foi fazer algo que de fato impactasse as pessoas e os territórios, já que via investimentos milionários com resultados pouco significativos.

“Daí nasceu uma pulga atrás da orelha: por que grandes investimentos sociais privados não estão dando retorno efetivo? E entendemos que faltava uma parte muito importante do processo, que era a consulta, o cruzamento com as necessidades reais daqueles territórios, das populações ali residentes”

A Tewá 225 nasce justamente para ouvir e transformar a voz dos territórios em dados e informações que levem ao desenvolvimento de projetos mais efetivos. Já foram desenvolvidos 33 projetos em 185 municípios do Brasil.

Com clientes como ReNature, Vedacit, Fundação Tide Setubal, Itaú, Unesco e Unicef, a consultoria utiliza uma metodologia própria chamada de 4Cs para buscar um impacto real, que atenda às necessidades de quem precisa. Isso é feito em duas áreas: Dinâmicas territoriais, que atua no apoio à implementação de políticas públicas, processo de mobilização e participação social, implementação de projetos etc.; e Geração de Conhecimento, que trabalha com análise de tendências, construção de capacidades em planejamento territorial e gestão pública, entre outros.

Todo esse trabalho é feito por um time de oito mulheres que vão a campo — nas comunidades, na floresta e onde houver demanda — para fazer essa escuta e transformar em impacto.

Nesta entrevista, Luciana conta sobre o trabalho da Tewá 225 e sobre como anda o cenário de desenvolvimento sustentável a partir dos investimentos públicos e privados.

 

Você fundou a Tewá 225 em 2013. Por quê?

Naquele momento, eu estava no processo de acompanhar um grande projeto com o Instituto Votorantim e o BNDES para investir em melhorias aos municípios brasileiros. É como se a consultoria nascesse a partir desse projeto.

Inclusive, foi ali que eu conheci a minha sócia, Gabriela [Oliveira]. Naquele momento, a gente tinha como principal pauta implementar aquela parceria pública privada. Então, a consultoria nasceu, a princípio, de um projeto de ocasião e foi se transformando ao longo dos anos.

E qual foi essa transformação?

Acabamos aprimorando a nossa tese de impacto a partir da implementação nos territórios e de uma dor que encontramos ao ter atuado no mundo do investimento e desenvolvimento e não ter visto resultados de impacto significativo.

Já fizemos gestão de carteiras de projetos milionários em diversas pautas, como modernização de municípios, ordenamento de territórios, meio ambiente, educação — e, no fim, os resultados eram pouco significativos

Daí nasceu uma pulga atrás da orelha: por que grandes investimentos sociais privados não estão dando retorno efetivo? E entendemos que faltava uma parte muito importante do processo, que era a consulta, o cruzamento com as necessidades reais das populações ali residentes.

Por muito tempo vimos projetos serem pilotados com metodologias do exterior, que não colam com a realidade local e não geram os resultados esperados.

Então, dessa lacuna começamos a construir a nossa metodologia própria, que a gente chama carinhosamente de 4Cs, e tem o objetivo de fazer essa ligação entre o território, suas necessidades reais, cultura e populações com as estratégias de investimento para desenvolvimento sustentável.

Como funciona essa metodologia?

Os 4Cs são quatro etapas. A primeira é Conscientizar, para que todos os stakeholders tenham consciência e um alinhamento conceitual sobre quais as demandas e realidades daquele território.

O território é sempre uma arena de conflitos e jogos de interesse, então você precisa conhecer todos para colocá-los em diálogo em prol de uma agenda do território — e não da agenda de um ou outro parceiro

A segunda etapa é Conversar, e temos multi-métodos possíveis para tratar a questão de construir um diálogo. A terceira etapa é Construir, momento em que vamos tentar promover a colaboração para a construção de uma solução viável.

E, por fim, a gente vai para a última etapa, que é o Consolidar, porque entendemos que a consultoria tem que se fazer em algum momento desnecessária. A consultoria é um agente que entra, catalisa o processo e sai, ela não é detentora do processo nos territórios.

Hoje, muito recurso fica parado nas organizações implementadoras. Chega o capital internacional para o Fundo Amazônia, por exemplo, e tem uma organização intermediária que vai implementar projetos. Essa instância é a que mais consome recurso. O recurso que chega efetivamente para os projetos da ponta é muito pequeno.

Não queremos ser uma dessas organizações. Por isso temos uma última etapa que faz com que a gente devolva para o território a sua autonomia

A proposta do Consolidar é que tanto os dados quanto a governança, a estratégia e o empoderamento sejam devolvidos para os stakeholders que estão nos territórios, para que a consultoria possa sair e deixar esse legado estruturado.

Isso pode ser feito como uma capacitação, a estruturação de uma governança local, um conselho comunitário, por exemplo. Mas também pode se tornar uma publicação aberta com dados que todos os stakeholders poderão usar.

De certa forma, a ideia é que a gente não concentre essa informação, uma vez que não somos um ator permanente no território.

E por que essa metodologia dá resultado?

É nesse processo de escuta do território que se ganham os principais drivers que alavancam resultados concretos.

Por exemplo, já trabalhamos com organizações que chegam com soluções de agroecologia.

Quando a gente dialoga com o produtor local, ele fala que vai continuar usando o veneninho porque o faz roçar menos a terra e ter menos trabalho… E aí você entende que está faltando uma conversa, uma escuta amorosa a esse território

É isso que a gente acaba trazendo como solução.

Nestes dez anos de atuação da Tewá, o que você avalia que mudou no cenário do desenvolvimento sustentável? As empresas e os governos evoluíram nessa pauta?

Quando olhamos para a esfera pública, vemos um processo que foi muito difícil porque vivemos uma polarização política que atrapalhou bastante. Então, teve uma oscilação maior.

Mas, no campo privado, tivemos um progresso. Quando olhamos para o investimento social privado de dez anos atrás, ou até mais, estamos falando de um investimento que era pautado no feeling da liderança.

Então, se o acionista tinha como causa pessoal a educação, era naquilo que as organizações iam se pautar para realizar os seus investimentos

Hoje, isso é muito diferente. A gente passou por uma aproximação do investimento com as cadeias de valor dos negócios, entendendo que os negócios geram impacto e precisam olhar para as suas cadeias de valor.

A partir daí, isso também já foi aprimorado. Ganhamos conceitos que antes não existiam no campo, como, por exemplo, a Licença Social para Operar (LSO), que é entender os territórios com presença de negócios.

É preciso uma relação ganha-ganha, favorável para todas as partes. Não adianta só o negócio transformar uma montanha num buraco, extrair todo o minério e aquilo não se tornar um legado para a população local

Hoje, temos um olhar muito mais claro de que o desenvolvimento acontece nos territórios. Começar a entender que tudo acontece no território foi uma virada de chave muito grande. Isso, em compensação, o poder público sempre teve porque existe um pacto federativo que é organizado para a maior parte dos serviços serem ofertados no município.

O governo do estado e o governo federal promovem políticas, fazem fiscalização, investimentos, mas quem está lá fazendo o dia a dia da política pública é o município. Então, ele já tem essa visão bastante territorializada.

Essa possibilidade do setor público e do setor privado dialogarem em prol dos territórios também foi uma aquisição, o que eu chamaria de progresso nesse campo, uma vez que eles nem conversavam.

Qual você considera que é hoje, em 2024, o grande entrave para evoluir essa pauta no setor privado? Porque, de fora, a sensação é de que a gente fala, fala, fala e nada acontece.

Quando estamos falando do que é de mais inovador no setor socioambiental ainda estamos falando de projetos pilotos ou em pequena escala. São cases de sucesso.

E quando estamos falando da política pública, onde realmente há potencial de avançar, ainda vivemos entraves, por exemplo, em relação à polarização, à falta de construção de uma agenda de Estado — e não só uma agenda de governo

Nesse sentido, o que faltaria nesse drive é conseguirmos caminhar para uma visão de que os territórios tenham a sua agenda de desenvolvimento, seja com investimentos públicos ou privados.

Isso vai depender de uma vontade política e vai depender, também, de uma capacidade de articulação e de construir essa governabilidade entre os stakeholders.

Como é possível aliar desenvolvimento econômico e sustentabilidade?

Essa pergunta os teóricos tentam responder desde a virada do século 20, quando tinha entre os acadêmicos os preservacionistas, para os quais é possível usar a natureza garantindo que as próximas gerações ainda tenham um pouco pra usar também; e os conservacionistas, para quem a natureza deve ser intocada.

Esse debate teórico foi muito rechaçado quando a ONU começou a promover as grandes conferências, desde Estocolmo em 72. E fomos tendo uma evolução na discussão para o entendimento de que, especialmente no sul global, os países ainda precisam chegar mais próximos de um bem-estar social e alavancar desenvolvimento.

Então, não tem como falar de uma agenda de conservação 100%. É preciso conciliar esse tipo de processo gerando bordas para quem já está mais avançado e entendendo que quem está em processo de desenvolvimento deve fazer isso dentro da melhor tecnologia disponível naquele momento histórico

Algumas respostas a essa pergunta foram dadas pelo campo socioambiental, no sentido de aproximar quem está muito fora da borda de um processo de redução das desigualdades, de melhoria de qualidade de vida.

Em contrapartida, aqueles que já extrapolaram demais os seus limites devem gerar barreiras para o seu desenvolvimento, para que não tenham como parâmetro um crescimento infinito.

O crescimento dos recursos naturais não é infinito, ele é finito. Então, a gente ainda vive sob o paradigma de que o crescimento econômico impulsiona o desenvolvimento social e nem sempre isso é uma verdade.

No artigo que escreveu para o Draft, você coloca alguns números interessantes, como o fato de a demanda de produtos amazônicos já atingir 176 bilhões de dólares e a floresta em pé ter um valor sete vezes maior que a exploração. Por que parece que o avanço ainda é muito lento se já existem dados que mostram bons resultados?

Temos um entrave político global, com algumas indústrias que ainda são poluentes. Uma das indústrias que mais recebe recursos no mundo é a indústria bélica. Quando a gente está ainda nesse cenário global, fica difícil avançar.

Hoje, o Brasil tem como principal fatia do PIB os commodities. Então, não tem como falar “elimina isso e vamos direto para a floresta em pé”. A gente geraria um entrave político que não passaria

Essa é uma barreira política, mas essa construção vai ter que ser feita. Acho que dados como estes são justamente para que a gente veja com bons olhos novas possibilidades.

Hoje, o mercado internacional já consome açaí, biojoias e madeira. Qual é a fatia que o Brasil tem nesse mercado? É ínfima. O Brasil tem fatias muito pequenas de um mercado em que ele é potencialmente fornecedor.

Então, como a gente faz para, em vez de fornecer soja, começar a fornecer açaí para o mesmo mercado global, para o mesmo europeu, para o mesmo chinês?

Acho que o Plano de Transição Ecológica fala um pouco sobre isso quando ele está falando de fomentar, por exemplo, um setor energético mais favorável, de mudar um pouco a base do que a gente está querendo representar no mercado global.

Vamos representar a partir de outros mercados? Podemos fazer essa transição? Certamente isso vai trazer prejuízo para aqueles que estão lucrando hoje.

A Tewá é uma empresa 100% formada por mulheres. Essa é uma iniciativa proposital ou foi algo que veio com o tempo?

Nós somos hoje uma empresa de oito mulheres técnicas e isso é uma coisa muito diferente no nosso mercado porque o cenário de trabalho técnico é tido como um cenário masculino.

Querendo ou não, você se expõe a um risco quando está em campo, no meio da Amazônia, numa estrada aleatória. Mas é algo que gera o valor que a gente mais entrega, que é essa capacidade de empatia e escuta com os territórios

Isso não foi uma estratégia que criamos em 2013, mas para entregar o valor que a gente queria aos nossos clientes não conseguimos fazer de outra forma. Já existem pesquisas, inclusive acadêmicas, mostrando que pesquisadoras mulheres têm mais acesso a informações qualitativas dos territórios vulnerabilizados do que pesquisadores homens.

Então, a gente sabe que vai entregar valor porque, justamente, temos uma capacidade de escuta e empatia ampliada. E isso passou, de uns anos pra cá, a fazer parte da nossa política institucional. Hoje, abrimos processos seletivos [exclusivos] para mulheres.

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