A Vitreo encarou um tabu e um mercado em mutação para criar o primeiro fundo de investimento em cannabis medicinal do Brasil

Leonardo Maran Neiva - 11 mar 2020
Os sócios da Vitreo, da esq. à dir.: Patrick O’Grady, Everson Ramos, Ilana Bobrow e George Wachsmann.
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Ainda que com várias restrições comerciais e produtivas, o uso da cannabis medicinal já é uma realidade no Brasil.

Timidamente, o país acompanha uma tendência de afrouxamento de leis e liberação do produto em vários países do mundo, como Estados Unidos, Uruguai e Canadá, que se intensificou ao longo da última década.

Com isso, o mercado de produtos ligados à cannabis tem crescido notavelmente. Se em 2018, segundo a consultoria Euromonitor, essa indústria movimentou 12 bilhões de dólares no mundo todo, até 2025 a previsão é de que o número salte para 166 bilhões de dólares por ano, com a constante inclusão e expansão de novos mercados.

Esse crescimento atrai investidores para o potencial de uma indústria que se torna, a cada dia, menos um tabu. De olho nessa oportunidade, a gestora digital Vitreo, sediada em São Paulo, lançou no fim de outubro o primeiro fundo de investimento brasileiro totalmente focado no mercado internacional de cannabis.

“Acompanhamos de perto as oportunidades de investimento e achamos que esse era um mercado potencial interessante”, diz George Wachsmann, sócio-fundador e CIO (chief information officer) da Vitreo.

O fundo Vitreo Canabidiol FIA IE investe 100% em ações no exterior, em empresas do setor existentes nos EUA e Canadá. Para investir, segundo as regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), é preciso ter ao menos 1 milhão de reais em aplicações ou possuir certificação aprovada pela comissão.

Como o fundo faz a compra de ativos fora do Brasil, a empresa optou por não interferir na variação do dólar com um hedge cambial, o que significa que, nesse caso, o investidor é impactado diretamente também pela variação da moeda americana.

A ALTA DEMANDA FEZ COM QUE A EMPRESA CRIASSE UMA VERSÃO “LIGHT” DO FUNDO

Hoje com 43 milhões de reais de patrimônio, o fundo teve alta adesão em seu início, o que fez com que os gestores da Vitreo percebessem que havia espaço para outra incursão relacionada à cannabis. Segundo George:

“O Vitreo Canabidiol foi lançado visando um público que poderia comprar um fundo 100% no exterior. Com a demanda que tivemos de clientes que não faziam parte desse grupo, surgiu a ideia de um segundo fundo, que abrangesse um número maior de cotistas”

Assim, apenas três semanas depois, a Vitreo lançou o Canabidiol Light FIC FIM, aberto ao público em geral.

O fundo investe 20% das ações no capital estrangeiro (o limite legal determinado pela CMV), por meio do Vitreo Canabidiol, e os outros 80% no fundo Pi Selic FIRF Simples, com títulos públicos pós-fixados — em que, assim como no outro fundo, não é possível saber previamente qual o rendimento — e taxa zero.

“Oferecer os dois fundos é como se déssemos a opção de beber uísque puro ou diluído com água”, diz George. “Essa é a comparação ‘grosseira’ que a gente faz.” Nos dois casos, o investimento mínimo é de 5 mil reais.

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Embora tenha sido pioneira no país, a Vitreo não está sozinha. Em dezembro, a XP também lançou um fundo de investimento semelhante, mas sem a exposição cambial que existe na versão da Vitreo.

O Trend Cannabis FIM, como é chamado, investe em ações de empresas do setor nos EUA, Canadá e Inglaterra, e acompanha a variação do ETF MG Alternative Harvest, um dos principais fundos ligados ao setor nos Estados Unidos.

PROPAGANDA NEGATIVA: EMPRESA OPTOU POR CAUTELA AO RECOMENDAR O INVESTIMENTO

Devido à desinformação que cerca o tema, George diz que a Vitreo se preocupou em deixar claro que o foco único do investimento seria o uso medicinal e farmacêutico da cannabis, evitando qualquer ligação com o uso recreativo da droga.

“Sem dúvida nenhuma, existe um tabu que acaba respingando na avaliação do investimento. Mas nossa proposta foi bem aceita pelos clientes, o que nos deixa bastante satisfeitos. Por enquanto, tivemos muito mais demonstrações de entendimento e solidariedade do que o contrário”

De acordo com George, a cautela ao recomendar o investimento aos cotistas é tanta que a empresa chega quase a “fazer propaganda negativa” sobre os novos fundos.

“Insistimos com os cotistas que não é um fundo no qual ele deveria concentrar muitos ativos. Deve ser apenas um pedaço dos recursos dele, da parcela dos riscos. Se os clientes nos escutaram, eles só colocaram de verdade uma parte dos seus recursos ali.”

A preocupação tem fundamento. Por ser relativamente novo, envolver uma substância proibida por décadas e ainda depender de mudanças em legislações pelo mundo, o setor é extremamente volátil. Para efeito de comparação, a volatilidade dessa classe de ativos está acima de 50%, enquanto a Ibovespa está na faixa dos 15%, afirma George.

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De acordo com o índice Harvest, utilizado pela Vitreo para medir os ativos da indústria em comparação com os fundos de cannabis, caso tivesse existido ao longo de todo o ano de 2019 o fundo teria um aumento de 50% no primeiro trimestre, seguido por uma queda de 60% de abril até meados de novembro.

No dia 20 de novembro, porém, a aprovação de um projeto de legalização da cannabis a nível federal, em um comitê do Congresso americano, permitindo a votação de uma regulamentação mais abrangente no país, fez com que o índice saltasse 15% em cerca de três dias.

“Oscila bastante, então as pessoas precisam saber que estão investindo em uma coisa a longo prazo e acompanhar o processo. Não é um ganho instantâneo e garantido, então talvez não seja para todo estômago”

MUDANÇAS NO BRASIL NÃO AFETAM O FUNDO, MAS APONTAM PARA UMA TENDÊNCIA GLOBAL POSITIVA

George acredita que a recente votação sobre o tema no Congresso dos EUA seja um divisor de águas para o setor.

Além disso, a queda no ano passado pode apontar para um horizonte mais otimista em 2020. Por ser um setor de risco para os investidores, espera-se que os ganhos compensem. Porém, George reforça que é necessário ter paciência.

George Wachsmann, CIO da Vitreo.

Em relação ao Brasil, ele afirma que decisões como a tomada pela Anvisa em dezembro, que liberou a venda de medicamentos à base de cannabis em farmácias mas rejeitou o cultivo da planta no país, não afetam diretamente os fundos de investimento, já que ambos são focados no mercado estrangeiro.

Ela seria, no entanto, um reflexo de um movimento global de discussão e maior abertura em relação ao tema, o que, caso continue com força pelos próximos anos, confirmaria a tese de investimento da Vitreo.

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Diferentemente de muitos representantes da indústria de cannabis no Brasil, George acredita que o mercado está sendo regulado em ritmo satisfatório no país, em conformidade com o restante do mundo.

“Entendemos bastante da tese de investimento, mas não participamos ativamente da discussão sobre a cannabis. Ainda tem outras coisas para serem feitas, mas o Brasil deu um passo importante. Recebemos muitos depoimentos de famílias sobre o uso da cannabis medicinal, dizendo que nosso movimento tem ajudado a causa, mesmo que indiretamente. Nesse sentido, é muito bacana.”

 

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