Futebol para muito além do gramado: saiba como o Atlético Mineiro trabalha para levar a taça em inovação

Leandro Vieira - 16 set 2021
Felipe Ribbe, head de inovação do Atlético Mineiro.
Leandro Vieira - 16 set 2021
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O futebol movimenta bilhões de dólares. Segundo dados da Deloitte, só em 2018, ano da última Copa do Mundo, na Rússia, a receita total gerada apenas no continente europeu bateu em 25 bilhões de euros (112 bilhões de reais na cotação da época).

Seria natural que um mercado tão rico estivesse na vanguarda da inovação, certo? Não necessariamente. Basta pensar no quanto o árbitro de vídeo demorou a ser implementado (e como o VAR virou pivô de erros e alvo de críticas disparadas por jornalistas e torcedores).

No país pentacampeão com a bola nos pés, a inovação ainda engatinha fora das quatro linhas do campo. Hoje, um dos clubes que puxam esse movimento é o Atlético Mineiro. Líder do Brasileirão, semifinalista da Libertadores e da Copa do Brasil, o Galo quer aproveitar o ótimo momento para vencer também no gramado digital.

Em maio, o Atlético se tornou o primeiro clube do continente a fazer um leilão de uma obra de arte em NFT. Arrematada por 5 mil dólares, a icônica imagem leiloada mostra o goleiro Victor pegando (com o pé) um pênalti nos acréscimos do jogo contra o Tijuana, do México, pela Libertadores de 2013. A defesa garantiu a classificação dramática do time mineiro, que conquistou o torneio naquele ano.

Essa é apenas uma das iniciativas recentes do clube. O Atlético vem intensificando suas ações no terreno da tecnologia, vista como estratégica para aumentar e diversificar a receita, atrair patrocinadores e oferecer experiências interativas que aproximem o torcedor e seu clube do coração.

O ATLÉTICO-MG FOI PIONEIRO EM CRIAR UM CARGO DE HEAD DE INOVAÇÃO

No final de 2020, o Atlético passou por uma mudança na diretoria, e chamou a EY para ajudar na reestruturação e profissionalização do clube.

“Nesse processo, foi criado o cargo de head de inovação”, diz Felipe Ribbe, 35, ele próprio o titular dessa função hoje no Galo. “Na época, nenhum clube tinha um cargo específico para isso.” 

A área de inovação do Atlético hoje é subordinada à diretoria de negócios. O foco principal é gerar novas receitas por meio da tecnologia e posicionar o Galo como um clube pioneiro no cenário brasileiro. Segundo Felipe:

“Nossa máxima é que dinheiro novo em clube de futebol é sempre bom, não interessa se é muito ou pouco”

Carioca, com formação em jornalismo e cursos em gestão de negócios e inovação estratégica, Felipe tem no currículo passagens pelo SporTV e pela NBB, a liga nacional de basquete. 

Em 2020, ele liderou um projeto de inovação aberta para outro clube alvinegro da Série A. Batizada de Vozão Conecta, a iniciativa buscava atrair startups para resolver desafios internos do Ceará Sporting Club (e foi pauta aqui no Draft, em outubro do ano passado).

Na época, Felipe era head de novos negócios da Enzima (parceira do Ceará no projeto), onde comandava um podcast sobre inovação em esporte e entretenimento. Foi assim que conheceu Leandro Figueiredo, diretor de negócios do Galo e seu convidado em um dos episódios. 

“Foi uma conversa bacana, mantivemos contato. Quando surgiu a vaga, o Leandro me ligou. Topei morar em BH e comecei em março deste ano.”

TOKENS DIGITAIS DÃO DIREITO A PALPITAR SOBRE O DIA A DIA DO CLUBE

As iniciativas do Atlético no universo digital, dentro e fora do mundo cripto, vêm se acelerando desde 2020.

Recentemente, o Galo se tornou o primeiro clube do Brasil a assinar um acordo com a Socios.com, plataforma global de engajamento de torcedores que já tem entre seus clientes potências do naipe de PSG, Juventus e Barcelona, entre outras da Liga dos Campeões da Europa. 

Em meados de junho, o Atlético lançou, através da plataforma, o seu token digital. Batizado de $GALO, ele garante aos compradores a participação em enquetes sobre temas que vão do design da braçadeira de capitão à música tocada no aquecimento do time (a escolhida foi “Pump It”, do Black Eyed Peas). 

Felipe explica como essa iniciativa ajuda a encher os cofres do clube:

“Lançamos nosso fan token no dia 13 de agosto. Foram 850 mil vendidos, a 2 dólares cada um — uma receita de 1,7 milhão de dólares em pouco mais de 9 horas, e o clube fica com 50% desse valor. Só os 600 mil primeiros foram vendidos em apenas 8 minutos”

Os tokens esgotaram por enquanto, mas o torcedor que ficou sem terá nova chance de adquirir o seu. A partir de 27 de setembro, a compra e venda estão liberadas. O preço, porém, não será mais fixo, passando a flutuar conforme a oferta e a demanda.

O GALO SE JUNTOU A UMA PLATAFORMA GLOBAL DE FANTASY GAME

Também recentemente, o Atlético fechou um acordo com a Sorare, empresa francesa responsável por um fantasy game de mesmo nome (pense num Cartola FC em versão global). 

Nele, os usuários podem gerenciar um time virtual usando cartões digitais baseados em jogadores de futebol; a performance dos craques dentro do jogo é influenciada diretamente pelo desempenho deles no mundo real.

Este ano, os cards de craques do Atlético, como Hulk e Diego Costa, estão sendo emitidos ao longo da temporada, com três tipos diferentes para cada jogador, de acordo com seu nível de raridade. 

Os cartões vão sendo colocados em leilão. Quem compra, além de levar um item digital colecionável, ainda pode usar o jogador para montar seu time e disputar campeonatos dentro da plataforma.

“Somos o único clube brasileiro ali dentro. Desde maio, quando entramos, já foram vendidos mais de 400 mil euros em cards do Atlético”

O clube não embolsa esse valor integral. O acordo, explica Felipe, é de licenciamento de marca em troca de royalties. 

“Até agora, já recebemos um valor de seis dígitos em reais — uma receita que o clube teve sem trabalho nenhum, só licenciando a marca.”

O CLUBE LANÇOU UMA COLEÇÃO DE CAMISAS HISTÓRICAS EM NFTS

Se houver uma camisa preta e branca pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento.

Ao cunhar essa frase, o escritor Roberto Drummond (1933-2002), autor de Hilda Furacão, jamais poderia imaginar que, um dia, o uniforme do seu querido Clube Atlético Mineiro estaria disponível também em versão digital.

Entre as iniciativas do Galo com tokens não-fungíveis está uma parceria com a Binance, uma das maiores exchanges de cripto do mundo. Nesse ambiente, o Atlético está lançando uma coleção de camisas históricas do clube em NFT.

A cada duas semanas, uma nova vestimenta é lançada em NFT. Elas vêm em versões 2D, com 500 cópias estáticas a um preço fixo de 6 dólares, e 3D, dez camisas em vídeo colocadas a leilão com um lance mínimo de 20 dólares. 

“O ambiente cripto ainda é muito complexo para a maioria dos atleticanos. Assim, mais do que fazer dinheiro, o objetivo hoje é educar esse público sobre cripto — e garantir uma receita recorrente lá na frente”

A ação segue até dezembro, num total de 13 camisas. Segundo Felipe, NFTs esgotam rapidamente, mas boa parte dos lotes é adquirida por estrangeiros sem ligação afetiva com o clube, que compram para lucrar na revenda. Daí a insatisfação do head do Galo com esse modelo.

“Assim a gente não consegue construir uma comunidade [digital] de torcedores. Estou conversando com outras empresas para que possamos ter mais controle sobre as vendas.”

COM INICIATIVAS ON E OFFLINE, O GALO ENGAJA MARCAS E TORCEDORES

Fora do mundo cripto, o Atlético toca outras iniciativas inovadoras. 

Um dos projetos é o Manto da Massa, lançado no ano passado. É uma camisa com design escolhido entre opções enviadas por torcedores, por meio de votação popular. 

Em 2021, na segunda edição do projeto, o Atlético vendeu 120 mil camisas em apenas dez dias, batendo os números do ano anterior.

Desenvolvido pela fornecedora do clube, a francesa Le Coq Sportif, o manto deste ano apresentou uma novidade: um chip NFC, que permite ao dono cadastrá-la como sua pelo app do clube no celular. Além disso, o chip libera uma área com conteúdos exclusivos e promoções especiais dentro do app. 

“A ideia é que essa camisa seja uma nova forma de comunicação do Atlético com seus torcedores, uma maneira de capturar dados e vender propriedades comerciais”

Também lançado em 2020, o Galo Ads é um ambiente para a venda de espaços para patrocinadores em propriedades digitais do clube, como banners em site, newsletter do time, vídeos e aplicativos.

“Abrimos essa oportunidade para micro e pequenos empresários que queiram se associar ao Atlético e falar para nossa base. Pense num ‘Google Ads’ em muito menor escala.”

A TECNOLOGIA PERMITE INTERAÇÕES VIRTUAIS COM AS ESTRELAS DO TIME

Em 2021, o clube lançou uma nova funcionalidade de realidade aumentada dentro do seu aplicativo, que agora oferece aos torcedores possibilidades de interagir com imagens de atletas (dos times masculino e feminino). 

Com auxílio da realidade aumentada, o torcedor pode, por exemplo, gravar um vídeo fazendo embaixadinhas “ao lado” de Hulk, e depois compartilhar esse encontro virtual em suas redes sociais.

A expectativa, por ora, não é gerar receita nessa frente, mas sim engajar os torcedores e sondar o interesse das marcas nesse novo recurso. A primeira parte da missão vem sendo cumprida. Só no primeiro dia da novidade, conta Felipe, o app superou 12 mil acessos — mais do que na semana anterior inteira.

No campo das especulações, Felipe já vislumbra novas experiências interativas:

“No futuro, queremos criar uma caça ao tesouro em realidade aumentada, como o Pokémon Go, mas numa versão do Galo, espalhando coisas pela cidade para que os torcedores encontrem, acumulem pontos e troquem por benefícios”

Por enquanto, essa caça ao tesouro ainda depende de aprimoramentos tecnológicos. “A gente aprende fazendo”, diz Felipe. “Também falhamos muito, mas a falha faz parte da inovação.”

A INOVAÇÃO ABERTA VAI SE SOBREPOR À RIVALIDADE NO FUTEBOL?

O principal objetivo do Galo, diz Felipe, é ser pioneiro e desbravar o caminho da inovação no futebol brasileiro. 

Para ele, no entanto, essa mentalidade ainda precisa perpassar todos os departamentos do Atlético para que o clube possa ser considerado realmente inovador.

“Na área de negócios, conseguimos demonstrar o valor que a inovação pode trazer em forma de receita, a linguagem que os clubes mais entendem. Precisamos unir os departamentos para que o clube com organização funcione melhor e isso traga benefícios, mesmo que indiretos”

Outra palavra-chave, afirma Felipe, deve ser colaboração — inclusive com outros clubes — na hora de desenvolver novos projetos, de forma a elevar o futebol nacional como um todo. 

A rivalidade, portanto, precisa ficar restrita às quatro linhas do campo. (Resta saber se “outros clubes”, no caso, inclui o arquirrival Cruzeiro…)

EM BUSCA DE CONEXÕES DENTRO E FORA DO MUNDO ESPORTIVO

O head de inovação do Galo conta que busca inspiração e networking nas ligas europeias. A ideia da camisa inteligente, por exemplo, veio do Real Sociedad, da Espanha, que fez algo semelhante por lá. 

“Virei amigo do Juan Iraola [líder de inovação do clube]. Perguntei para ele como funcionava, e ele até me apresentou à empresa que criou as camisas por lá.”

Felipe também procura se manter antenado com as novidades do mundo dos negócios em geral, para além do futebol. Recentemente, por exemplo, bateu um papo com um diretor da área na Natura

“Quero pegar uma empresa que está muito mais evoluída que a gente, ver que dores eles passaram para chegar nesse nível e descobrir de que forma consigo cortar caminhos no Atlético”

Mesmo largando na frente, o clube mineiro ainda está no início de uma longa maratona. A médio prazo, diz Felipe, o Atlético planeja criar programas de conexão com startups e universidades, para alavancar de vez a inovação.

“Aí, poderemos dizer que somos uma organização realmente inovadora, desde o setor de negócios até a comunicação. Esse é o grande sonho que o Galo tem hoje. Estamos nos preparando para isso.”

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