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“Como falar de meio ambiente sem ser um chatão?” Esse é um dos títulos das postagens em destaque de Gabriel Ferri, 28, nas redes sociais.
“Quem quer ver um problema às 5 horas da manhã quando sai para trabalhar de busão e olhas as redes? A gente que trata desse assunto está competindo com o entretenimento”
O geógrafo de formação está por trás do Planeta Pós-Pandemia (P³), perfil que traduz a sustentabilidade para a vida real e é acompanhado por quase 300 mil pessoas, somando Instagram, TikTok e LinkedIn, onde também está hospedada a sua newsletter, Entre o lixo e o lucro.
Gabriel fala de forma simples e prática sobre o assunto para “furar a bolha”. “Eu era muito mais ativista. Hoje, me considero um educador.”
O reconhecimento do seu impacto vem de organizações como a ONU – ele faz parte da rede “Agentes do Verificado”, iniciativa que escolhe influenciadores, ativistas, cientistas e criadores de conteúdo para serem mensageiros de confiança e combaterem a desinformação. Gabriel também é embaixador do Greenpeace.
Na época do vestibular, Gabriel decidiu cursar engenharia de alimentos. “Eu era bonzinho de exatas por ser filho de uma professora de matemática.”
Natural de São Carlos (SP), ele chegou a fazer um ano do curso na Universidade Federal do Triângulo Mineiro, em Uberaba (MG), mas depois entendeu que seu caminho era outro. Então, se inscreveu no Enem e passou em Geografia na Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
No começo do curso, Gabriel queria ser professor em colégios, como sua mãe, dona Edmara. “Minha primeira experiência dentro da geografia foi em um estágio no Museu de Rochas e Minerais da UFU”, lembra.
“Ali comecei a ter contato com o plástico por conta da questão de sedimentação de rochas. O plástico é muito novo comparado aos milhões de anos das rochas, mas a gente já via resíduos desse material ali”
Gabriel também fez estágio no Hospital das Clínicas de Uberlândia na área de gestão de resíduos hospitalares. Toda essa visão do lixo começou a incomodar o jovem, que passou a refletir cada vez mais sobre a importância da educação ambiental e da sustentabilidade.
Ele ainda foi professor auxiliar de um cursinho popular preparatório para o vestibular e monitor de Geografia da Escola de Educação Básica da Universidade Federal de Uberlândia. A essas experiências transformadoras se somaram também um voluntariado como educador ambiental em Bogotá e um estágio no Projeto TAMAR, em Ubatuba (SP).
Todas essas vivências profissionais, diz Gabriel, podem parecer difusas, mas hoje se conectam:
“Me joguei em todas as áreas possíveis dentro da geografia para tentar entender o lugar que queria estar e percebi que elas se correlacionam com o que faço hoje como comunicador da sustentabilidade”
Ali entre o meio e o fim do curso de Geografia, quando começou a pandemia da Covid-19, ele teve a ideia de criar um perfil nas redes sociais para destacar, em tom de denúncia, casos de crimes ambientais que via na imprensa.
Nascia assim, em 7 de abril de 2020, o Planeta Pós-Pandemia. “Nesse comecinho, eu falava muito sobre os desmontes das leis ambientais no governo Bolsonaro.”
O envolvimento com o tema e a própria experiência prática influenciaram a escolha do tema do seu trabalho de conclusão de curso (TCC), intitulado “Educação e conscientização ambiental crítica por meio de redes sociais”.
Apesar de estar mergulhado nesse universo, Gabriel conta que teve dificuldades de achar repertório sobre o assunto para a sua pesquisa.
“Quase ninguém falava de influência ambiental em 2022. Era tudo mato”
A sua referência, naquele momento, era o perfil Menos 1 Lixo, iniciativa para a qual, aliás, chegou a trabalhar como redator, assim como para a Positiv.a (leia sobre a empresa no Draft)
No começo do P³, Gabriel não colocava seu nome nem “a cara” nas postagens. “Não botava muita fé em mim, tinha muita vergonha, era tímido.” Outras sete pessoas trabalhavam voluntariamente com ele na gestão dos canais.
Quando, em seis meses, o perfil no Instagram bateu 10 mil seguidores, ele decidiu se apresentar, mas sem fazer vídeos. “Até porque naquela época não existia essa febre de reels.”
Em 2023, já com 60 mil seguidores e com apenas ele e o amigo, o engenheiro agrônomo e hoje sócio Vinícius Garcia, coordenando o perfil, Gabriel passou a aparecer nas próprias postagens. No mesmo ano, também começou uma pós-graduação em ESG e Sustentabilidade Corporativa.
Hoje, o P³ tem a sua própria metodologia de comunicação. Gabriel acredita que isso surgiu do seu gosto por conversar e também ouvir os outros.
“Acho que a gente não pode deixar ninguém de lado nesse papo”, diz, e complementa:
“Busco maneiras de comunicar a questão da crise climática impactando para a pessoa que usa ecobag e consome agroecológicos até o pequeno produtor de café, que está sentindo na lida diária o impacto do calor extremo e da proliferação de pragas”
Ele argumenta que para aproximar o público dessa conversa não dá para fazer alusão a geleiras derretendo ou urso polar em extinção, fatos “genéricos” no dia a dia da maior parte da população:
“Isso é um erro da comunicação ambiental. Tem que mostrar, por exemplo, como a crise climática dói no bolso e faz a gente pagar mais pelos alimentos e pelas contas de água e luz. Ou como te impede de correr em determinados horários, porque o sol está muito forte”
Gabriel cita a corrida porque a prática faz parte do seu dia a dia e, segundo ele, é uma das estratégias que o ajuda a manter a sanidade. “Lido com a ansiedade, a ecoansiedade e até com os ataques haters nas minhas postagens dessa forma, correndo.”
O influencer também comenta sobre a importância de ser claro em relação ao que é ideal e o que é possível fazer, de fato:
“Os produtos sustentáveis acabam sendo mais caros e a gente sabe que a realidade da maioria dos brasileiros é puxada financeiramente. Não adianta dizer que tem que usar uma escova de bambu. Se der para fazer isso, ótimo, mas senão, o importante é saber que há soluções mais sustentáveis e desenvolver pensamento crítico sobre o assunto.”
Assim como a maioria dos influenciadores, Gabriel tem como uma das fontes de renda em seu perfil as publicidades. Ele já realizou postagens patrocinadas para marcas como Heineken e Suzano.
Em maio do ano passado, também lançou seu primeiro infoproduto, o ebook Sustentabilidade no automático: transforme sua rotina com uma sustentabilidade mais prática (R$ 27,40). “A ideia do livro é focar no cotidiano das pessoas e trazer soluções sustentáveis e práticas para o dia a dia.”
Mas seu modelo de negócio não se resume a isso – e ganhou mais clareza após participar de dois programas de aceleração, que fizeram com que o P³ passasse a se posicionar como um hub de comunicação socioambiental.
A primeira aceleração foi a do InovAtiva Brasil, programa do governo federal.
“Essa iniciativa fez com que a gente passasse a se ver como startup”
Depois, o P³ foi impulsionado pelo Green Sampa, programa de aceleração da Prefeitura de São Paulo que aportou 50 mil reais no negócio.
Com o investimento, Gabriel e Vinicius, o sócio, criaram mais um serviço, um braço educacional, previsto para ser lançado em maio:
“O Planeta Pós-Pandemia Ensina será uma plataforma com minicursos, mentorias, divulgação de vagas na área e e-books – tudo de uma forma acessível e a um preço popular”
O foco do novo serviço serão pessoas que se interessam pelo tema da sustentabilidade, querem se aprofundar e aplicar isso no dia a dia, mas também quem trabalha ou quer atuar nesse ecossistema.
Gabriel também dá palestras. Uma das mais recentes foi durante o Feirão Serasa Limpa Nome, em São Paulo, onde ele falou sobre a crise climática e a sua influência no bolso dos brasileiros. Anteriormente, palestrou na UFRJ e para funcionários do Grupo Pardini.
Um dos seus maiores orgulhos, conta Gabriel, foi entrevistar Marina Silva, então ministra do Meio Ambiente e das Mudanças Climáticas (o papo foi ao ar em setembro do ano passado).
“Foi a realização de um sonho e também um grande desafio entrevistar a Marina Silva, porque ela é uma das minhas maiores inspirações desde que comecei nessa jornada”
Sobre desafios e próximos passos, ele se diz que se sente “estabilizado” como creator, mas reconhece que “ainda tem muita coisa para entender sobre o ecossistema de startups”.
Quanto aos planos futuros, Gabriel afirma que a sua meta continua sendo a mesma do início de sua trajetória como tradutor da sustentabilidade:
“Quero estourar a bolha, me sentir cada vez mais confortável e com argumentos para falar com qualquer pessoa, porque a crise climática é apartidária. Está todo mundo sofrendo com ela. Obviamente, os ricos [sofrem] menos, mas está todo mundo passando por isso.”
Num setor ainda marcado pelo desperdício e pela pressa, a CÓS faz o movimento oposto: trabalha com o que já existe, valoriza o tempo de quem produz e mostra que é possível unir moda e responsabilidade sem abrir mão da beleza.
O mercado ainda não estava pronto quando a Positiv.a surgiu, em 2016, oferecendo um kit de limpeza sustentável por assinatura. A empresa reajustou a rota, lançou novos produtos e agora sonha em atingir um em cada cinco lares do país até 2030.
O turismo gera renda e emprego, mas também potencializa impactos ambientais negativos. Saiba como três empreendedoras uniram forças para desenvolver uma certificação voltada às boas práticas sustentáveis do setor hoteleiro do Brasil.
