“Pandelivery” desvenda a vida do batalhão de entregadores que encara a Covid na rua para que você receba suas compras em casa

Bruno Leuzinger - 27 out 2020
Cena de "Pandelivery" registrando manifestação dos entregadores contra os aplicativos.
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“Você está maluco?! Nunca mais você vai trabalhar com iFood, Rappi…”

O diretor de filmes de publicidade Guimel Salgado, 31, resolveu correr esse risco. O comentário acima resume a incredulidade de colegas que assistiram a Pandelivery, o documentário dirigido por Guimel e Antonio Matos e lançado no YouTube no último dia 15. 

Sócio (com Marina Waldvogel) da produtora Soalma, Guimel teve a ideia de se debruçar sobre o universo dos motoboys — hoje chamados de entregadores — durante uma de muitas refeições divididas com Antonio, seu assistente de direção na publicidade.

Só na cidade de São Paulo, diz o diretor (citando o SindimotoSP), são quase 300 mil entregadores. Mas quantos foram contaminados pela Covid?

“Essa era uma das perguntas que a gente imaginava responder”, diz Guimel. “Mas muitos dos entregadores ou não sabem que estão contaminados — ou, quando sabem, não avisam os apps por medo de serem bloqueados.”

Em 12 dias, Pandelivery, um curta-metragem de 15 minutos, registra pouco mais de 7 mil visualizações. Segundo Guimel, os aplicativos de entrega se recusaram a responder a perguntas enviadas desde março. “O documentário passou por três advogados para entendermos se poderíamos ter algum problema.”

A seguir, Guimel conta os bastidores do filme, e o que ele aprendeu durante a produção.

 

Como surgiu a ideia do Pandelivery?
Eu e o Antonio [Matos] fizemos nosso primeiro filme juntos em 2018, para a Associação Brasileira de Indústria de Vidro, e ganhamos o El Ojo por esse trabalho. Depois fizemos mais seis ou sete filmes juntos, e sempre pedíamos delivery e ficávamos conversando sobre esse tema: putz, fui lá pegar a comida e o cara estava encharcado na chuva…

Um dia, sugeri: por que a gente não faz uma ficção? Contando o que se passa na cabeça desse entregador, quando ele está voltando para casa ou então buscando comida num restaurante chique… Daí, deu duas semanas, começou o coronavírus. E a gente sabia que ia chegar aqui.

O Antonio disse, “Gui, por que a gente não mistura essa ficção com um documentário?”. E eu rebati: não, vamos fazer só um documentário. Porque essa classe vai ser muito afetada. Estava batendo quarentena, lockdown no mundo inteiro. Fizemos uma pesquisa e vimos que os entregadores estavam super atarefados

Quando o vírus chegou [no Brasil], não pensamos duas vezes e fomos para a rua. Devidamente equipados, obviamente. Foi apaixonante conversar com os caras, é um mundo muito diferente.

Quando vocês foram para a rua, de fato? E como foi a dinâmica de trabalho?
Começamos em março, logo depois que teve a primeira morte [por Covid] no Brasil. Falamos: é agora. Fizemos quase todo o filme apenas com uma lente, uma câmera (Fuji X-T2) e um drone; nas manifestações, íamos com duas câmeras, para não perder nada. Gravamos até o final de julho.

No início foram mais entrevistas de campo para entender quais personagens seriam interessantes para contar essa história. Acabamos elencando o Daniel e o Paulo como os principais. Um é entregador de bike, um menino de 20 e poucos, o outro é o famoso ‘motoboy’, trabalha com moto há 10 anos… Queríamos esse contraponto

Em geral, a gente tentava buscar lugares que tinham aglomerações de motoboys: caramba, 30 caras esperando uma pizza no começo da pandemia… Perigoso, isso.

A equipe de campo era eu e o Antonio — e às vezes o Rodolfo [Borbel Pitarello], um dos produtores. Ele levava a gente pra cima e pra baixo, pegava autorização de uso de voz e imagem enquanto a gente estava conversando com três, quatro caras [ao mesmo tempo].

Como dono de produtora, eu não poderia ser irresponsável e montar uma equipe [grande] para ir à rua [durante a pandemia]. Mas a equipe do Pandelivery tinha mais de 20 pessoas trabalhando remotamente: colorista, produtor de motion, o maestro que fez a trilha sonora…

Que tipo de precauções vocês tomaram contra a Covid-19?
Todo mundo fez teste e ninguém pegou, a equipe está Covid-free até hoje. Quando fiquei sabendo que a Mari estava grávida, tive que parar de ir a manifestações, por exemplo, onde a chance de eu pegar Covid era maior. Mas continuei indo gravar onde não tinha aglomeração, usando face shield, máscara, óculos, luvas… 

A gente estava montando [o filme] na casa da roteirista, a Carol Rosa, em Santa Cecília. Teve uma hora que acabaram as paredes, de tanto post-it que a gente colava…. Tivemos que alugar uma casa em Perdizes; lá, tínhamos duas salas, só podiam ficar duas pessoas no máximo por sala; eram salas grandes, então a gente manteve distanciamento.

Sobre os personagens: como vocês chegaram no Paulo?
Vi um vídeo dele que viralizou e mandei um inbox no Instagram: “pô, estou fazendo um documentário, você tem muito o perfil que a que a gente quer…” Ele ainda não tinha virado um revolucionário. O movimento dos Entregadores Antifascistas [fundado por Paulo] ainda não existia.

Na época, o Paulo era só uma voz que reivindicava que os entregadores pudessem ter comida durante o dia. Um almoço em Pinheiros, Perdizes, não custa menos de 20 reais. Mesmo uma coxinha custa 7 reais. Esses caras ganham 40, 50 reais [por dia], trabalham 12 horas… E não conseguem ir ao banheiro. Onde eles vão fazer xixi?

Se tiverem que pagar para comer, já não vale a pena trabalhar [nessas condições]… A reivindicação do Paulo era que os aplicativos dessem um jeito. Tipo: “Me dá crédito de iFood, Rappi, para eu comer em alguma padaria com a qual você faça acordo, ou numa ghost kitchen… Deem comida para a galera, porque a galera não está comendo”

O Paulo é um personagem incrível, altamente politizado, conversar com ele é mágico. Ele é pai de uma menina, e quando ficou sabendo que eu seria pai de uma menina começamos a criar outro vínculo, a falar de paternidade, futuro…

Durante a montagem, ele ia na nossa produtora, assistia [ao material em edição], e a gente perguntava: o que você acha, Paulo? “Acho que está bom, pode seguir por esse caminho.”

E o Daniel, o outro protagonista? Como vocês o conheceram?
Conhecemos o Daniel através da Preta, uma líder comunitária do Jardim Ibirapuera, perto do Morumbi. Queríamos entender a rotina da comunidade no começo da pandemia, a gente sabia que ali seria um grande foco, são dez pessoas morando numa casa de 15 m²… 

O Daniel é um menino apaixonante, ingênuo, casado com uma mulher que tem dois filhos. Ele tem 20 e poucos, ‘abraçou’ as crianças… Isso já mostra um pouco da personalidade dele. Um dia, estávamos montando o filme, o Antonio recebe uma mensagem. “Putz, o Daniel sofreu um acidente…”. Foi grave, ficou desacordado…

Depois, fomos à casa dele. A sogra cuida de idosos, acabou cuidando dele também. Tem uma cena linda, me emocionei na hora, ela disse: Daniel, tá na hora de lavar a mão. E a gente [falando baixo]: “caramba, ela vai lavar a mão dele? Antonio, pega a câmera…”, e ele ficou no cantinho, gravando, captando aquele barulho de água…

Hoje o Daniel não trabalha mais para nenhum aplicativo. Está com um problema no braço, ainda não consegue esticar. Não teve acompanhamento, fisioterapia…

Ao todo, quantos entregadores vocês entrevistaram? Como foi a recepção, no geral?
Foram mais de 50 entrevistas, de [pelo menos] 10 minutos. Eu chegava conversando, de um jeito que eles se sentissem confortáveis para trocar uma ideia. Sempre fomos bem recebidos, a gente via que eles queriam falar. 

É uma classe que não se sente tão importante. E eles não conseguem se unir, são muito divididos, ficam batendo cabeça. 

Muitos [entregadores] bolsonaristas se veem mesmo como empreendedores; outros, apolíticos, sabem que aquele trabalho “é o que tem”… E há os de placa vermelha [regularizados para transporte de carga], que são contra os aplicativos: “por que me ferrei pagando um monte de coisa [licenciamento] e agora vai chegar um monte de moleque entregando de bicicleta?” 

Uns pedem para aumentar a taxa, outros pedem para ter EPI no trabalho, outros pedem comida [para os entregadores], mas aí os que querem que aumente a taxa dizem: “Vocês estão malucos de pedir comida?? Então que aumentem a taxa, aí a gente compra comida.”  

E os aplicativos sabem disso, sabem que é difícil ter essa união. E só com união eles poderiam mudar algo

Em Pandelivery, há um trecho de um vídeo institucional do iFood sobre entrega de máscaras e álcool em gel, e em seguida a informação é contestada por entregadores. Eles afirmam que não receberam? E que outras queixas vocês identificaram?
Temos duas histórias sobre isso. A gente estava com entregadores que já eram do iFood, esses tinham que retirar álcool em gel em um determinado lugar, e só podia retirar um. Só que se for usar do jeito certo, entre uma entrega e outra, esse álcool não dura nem um dia; esses caras fazem oito, nove, dez entregas [por dia]. 

Por outro lado, quem tinha acabado de entrar no iFood recebia o álcool em gel em casa e se sentia: “meu, o iFood se preocupa comigo, mandou o álcool em gel na minha casa…”. 

Máscara? Eles entregaram máscaras, mas não para a frota inteira. Essa é a denúncia. Você pode dizer que entregou, e entregou mesmo — mas quantas?

Outra coisa que a gente viu é que os entregadores começam ganhando bem, chamam amigos para serem entregadores também… Mas depois de três meses o aplicativo toca menos…Tem um monte de regrinhas, você tem que desbloquear áreas. É tipo um videogame. Se não ficar jogando, você perde privilégios

Você já viu foto dos entregadores dormindo com a bag na cabeça? Tem entregador que dorme na rua, porque se não cumpre o tempo necessário de entrega pode ser bloqueado. E às vezes a casa é longe, então ele acaba ficando na rua… Isso é muito desumano.

Você é diretor de publicidade. Como foi realizar um documentário?
Como diretor de publicidade tudo tem que estar perfeito, equilibrado… Tive que abrir um pouco mão da estética e me focar na narrativa, me jogar mesmo na história. 

O diretor Guimel Salgado.

Foi um puta aprendizado abrir mão de muita coisa. Você tem um filme na cabeça e esse filme muda toda semana… Achei que ia ser muito mais fácil, mas é uma bela duma “bucha” fazer documentário.

Você começa a se envolver com as pessoas e a sentir a responsabilidade de que aquilo tem que sair. E você tem escolhas a fazer, quem você vai enfatizar… São tantas histórias, e só tínhamos só 15 minutos para contar, porque [desde o início] a gente queria fazer um curta metragem.

E em relação aos entregadores e a esse segmento de comida por aplicativo: o que você aprendeu com esse projeto?
[Pensa um pouco] Esse tipo de serviço não tem como não existir mais. Um dos grandes aprendizados é que não dá para parar de usar, porque isso é uma fonte de renda. Mas aprendi a ter um consumo responsável, por assim dizer. E a pensar que temos que lutar para que algumas coisas sejam regularizadas para esse tipo de trabalhador.

Sempre estoura na ponta mais fraca. Tem muita gente desempregada. Antes da pandemia, havia uma fila de espera de uns dois meses [para ser entregador] no iFood. Quando veio a pandemia, aprovou um monte de gente. E quando aprovou, o cara que ganhava 100 reais passou a ganhar 50…

O que levo para mim é que a gente precisa, como sociedade, forçar os aplicativos a ter um mínimo de responsabilidade sobre as pessoas que eles ‘empregam’. Como diz o VP da empresa, no iFood não tem emprego, tem trabalho. Mas essas pessoas acabam reféns [da situação]; quando veem uma oportunidade, elas agarram 

Os entregadores não esperam 13º, CLT. Acho que seria inviável. Mas tem outras formas de dar algum tipo de direito para esses caras. O certo seria isso: um mínimo de direitos.

Os aplicativos dizem que dão [algum suporte]… O Daniel, acho que recebeu uns 800 reais do UberEats, depois de três meses [do acidente], para fazer fisioterapia. Que ele não vai fazer. Pense: você recebe 800 reais… Vai gastar em fisioterapia ou comprar comida?

O que você define como “consumo responsável”?
Nunca fui contra o uso do aplicativo, ainda uso hoje em dia. Mas sempre me certifico de que, se estou comprando algo mais pesado, vai ser entregue de carro. E sempre ofereço água, café, um lanchinho… E claro, gorjeta: no mínimo 10% do valor do pedido.

Isso é algo que a gente acha um absurdo: a terceirização da responsabilidade que os aplicativos fazem com os entregadores, do tipo: “dê gorjeta!”. Por que a empresa terceiriza para o consumidor a responsabilidade de pagar melhor a pessoa que presta o serviço?

Garçom ganha gorjeta — mas garçom ganha salário. Em geral, as pessoas a quem a gente dá gorjeta são aquelas que ganham salários. Só que os entregadores dependem da gorjeta. E aí, se você não der gorjeta, o cara vai ganhar o quê? Três reais numa entrega?

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