Você já vivenciou um caso de assédio no trabalho? A SafeSpace quer ajudar empresas a diminuir os casos de má conduta interna

Dani Rosolen - 1 dez 2020
A partir da esq.: Giovana, Rafaela e Natalie, fundadoras da SafeSpace.
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Não é fácil denunciar casos de assédio, ou qualquer tipo de abuso. É assim na vida, e no ambiente de trabalho.

Uma pesquisa da MindMiners, de 2019, realizada com 500 pessoas, mostrou que 96% dos profissionais já vivenciaram episódios de má conduta no escritório, mas só 12% relataram o problema ao RH ou à chefia.

A vontade de mudar essa estatística move as sócias da SafeSpace. A startup apoia funcionários na hora da denúncia e ajuda empresas a identificar e solucionar problemas de comportamento no trabalho.

Lançada no começo de 2020, a plataforma já foi implantada em empresas como Gupy, Lambda3, InLocoMedia e TotalPass.

O objetivo é fornecer uma ferramenta por meio da qual as áreas de compliance e RH possam visualizar o que está acontecendo de errado, ajudando a resolver o problema e a aprimorar a cultura da empresa.

A FUNDADORA SE DESILUDIU COM O RITMO DE TRABALHO DO TERCEIRO SETOR

Rafaela Frankenthal, 26, é a CEO da SafeSpace. Formada em Marketing e Comunicação Social, trabalhava numa startup de pesquisa de mercado quando decidiu deixar o emprego para fazer um mestrado na University College London, no Reino Unido, em Estudos de Gênero.

Ela já sabia que queria empreender algum projeto ligado a feminismo e combate ao assédio sexual. No início, porém, achou que seu foco seria o terceiro setor. 

“Já tinha atuado em uma ONG que ensinava mulheres a tirar fotos e vendê-las para bancos de imagem, mas fiquei frustrada com o ritmo de trabalho e a dependência de doações” 

A ONG era a Lensational, que ajuda a gerar renda para mulheres em situação de vulnerabilidade. Ao olhar para o setor privado, Rafaela percebeu que assédio sexual, tema de sua pesquisa, ocorria com frequência nos escritórios — mas havia também diversos outros tipos de ocorrência, como assédio moral, bullying, fraude etc.

COMO USAR A TECNOLOGIA PARA AJUDAR A RESOLVER CASOS DE MÁ CONDUTA

“Combater esses caos é cada vez mais relevante para as empresas por conta do risco de exposição de imagem e dos custos com turnover”, diz a empreendedora. “O assunto também ganhou destaque na mídia a partir de movimentos como MeToo e Black Lives Matter.”

Mesmo assim, as soluções de canais de denúncia existentes no mercado, segundo ela, ainda são muito ruins:

“Hoje a gente não fala por telefone nem com a mãe… Porém, em um caso de denúncia na empresa, a colaboradora tem que ligar num call center para falar com quem alguém que ela nem conhece sobre um tema delicado como assédio… Isso não faz sentido.”

Assim, Rafaela começou a pensar em como usar a tecnologia para tornar o processo mais inteligente (e mais confortável para quem faz a denúncia). Em outubro de 2019, se pôs a trabalhar no projeto da SafeSpace. 

PARA BOMBAR O MVP, ELAS CRIARAM UMA CAMPANHA COM MICROINFLUENCIADORAS

Para embarcar com ela na empreitada, a empreendedora convocou duas sócias.

A administradora Natalie Zarzur, sua amiga de infância, chegou para ajudar com a projeção financeira e modelo de negócio. Em pouco tempo, Natalie largou o emprego (como head de business intelligence na Raízs) para mergulhar 100% na SafeSpace. 

O mesmo aconteceu com Giovana Sasso. Amiga de Rafaela da época de faculdade e designer de UX de produtos, ela deixou a agência onde trabalhava e ficou responsável por colocar de pé o MVP da SafeSpace. Rafaela lembra:

“Criamos domínio, pensamos na identidade visual e subimos o site no ar como se o produto já existisse… Fizemos campanha com algumas microinfluencers que a gente conhecia e algumas empresas vieram pedir orçamento”

Entre essas microinfluenciadoras que ajudaram a bombar o MVP, Rafaela cita Maria Montoro, Julia Konrad e Lela Brandão. Às empresas interessadas, as sócias precisaram explicar que a plataforma não existia ainda — mas aproveitaram para apresentar a ideia e recolher insights.

ELAS FORAM INVESTIGAR POR QUE TANTA GENTE HESITA EM FAZER DENÚNCIAS

As sócias investiram 50 mil reais nesta fase do negócio; a grana bancou, por exemplo, o desenvolvimento da plataforma, a cargo de uma programadora, Claudia Farias, que se juntou à equipe.

Tirar essa ferramenta do papel envolveu (e envolve) muita pesquisa, diz Rafaela:

“Pesquisamos muito os canais de ouvidoria tradicionais e conversamos com pessoas da área de compliance de empresas grandes para entender as principais dores. E ainda fazemos isso! Conversar com clientes e potenciais clientes é a melhor forma de aprender e tomar decisões de desenvolvimento de produto”

Uma das dúvidas que pipocava na cabeça das sócias era o porquê de tantas pessoas demorarem para denunciar episódios de má conduta (ou, então, nem sequer fazer a denúncia).

Elas descobriram que os principais obstáculos eram a dificuldade de acesso à comunicação interna da empresa; a falta de informação sobre o que seria ou não motivo de uma denúncia; a impossibilidade de saber quem era o interlocutor do outro da linha e quando o caso seria resolvido; além do medo de se expor como vítima.

UM FLUXO DE PERGUNTAS MAPEIA AS CIRCUNSTÂNCIAS DO EPISÓDIO

A ferramenta, as sócias sacaram, precisava permitir o acompanhamento dos relatos em tempo real — um dos receios dos colaboradores, afinal, era saber quando aquilo seria lido.

A plataforma, explica Rafaela, funciona pelo computador ou no mobile com uma URL própria para cada empresa. 

“Ao entrar na plataforma, o usuário passa por um fluxo de perguntas que serve como guia para que ele mesmo entenda o que aconteceu, sem deixar informações de lado — o que ajuda a gerar credibilidade para o depoimento e a investigação”

O fluxo de perguntas inclui questões objetivas sobre as circunstâncias do episódio (por exemplo, onde e quando ocorreu? Qual o departamento do funcionário envolvido?) e indaga à pessoa responsável pela denúncia como ela própria “classificaria o ocorrido”.

Um “termômetro” (de 0 a 10) também permite ao colaborador ou à colaboradora indicar sua percepção sobre o nível de gravidade do caso, e o seu impacto no ambiente de trabalho.

É POSSÍVEL SALVAR E ADIAR O ENVIO DO RELATO, PARA AVALIAR MELHOR A DECISÃO

Na hora de enviar a denúncia, é possível escolher fazer isso de forma 100% anônima (o colaborador recebe um ID para acompanhar o status do processo e saber quando foi lido ou resolvido) ou nominal (neste caso, as notificações podem ser acompanhadas por email).

É possível registrar o relato e salvá-lo para envio mais tarde, caso a pessoa ainda esteja insegura sobre fazer ou não a denúncia.

“Muitas vezes, as pessoas esperam aquilo acontecer com recorrência para denunciar. Mas aí, na hora que decidem, não têm provas. A ideia desse feature é permitir que elas transformem memórias em evidência”

Os registros, diz Rafaela, ficam salvos na plataforma com hora e data marcada de forma privada. “Assim, quando a pessoa se sentir segura, existe uma timeline das ocorrências ali.”

Para evitar conflitos de interesse, a plataforma é configurada para que um gestor não receba relatos enviados por subordinados diretos.

COMO A EMPRESA PODE AGIR PARA SOLUCIONAR E PREVENIR PROBLEMAS?

No painel do administrador, os profissionais de compliance, RH ou outros responsáveis por gerenciar os casos de denúncia conseguem filtrar os relatos por área da empresa, frequência, tipo de problema e a relação entre os acontecimentos.

O administrador da plataforma consegue ver, por exemplo, que aconteceram dois casos de assédio moral na área de finanças (e se o colaborador envolvido é o mesmo ou não), o que pode indicar um problema específico nesse departamento, exigindo uma ação localizada.

“Isso ajuda a empresa a ter uma visão melhor de onde estão os pontos fracos de sua cultura e focar na prevenção”, diz a CEO, que exalta a importância de as organizações terem uma gestão mais proativa.

“Aquele indivíduo teve um comportamento tóxico porque a cultura daquela organização permitiu. Então, é hora de entender onde está o problema. Senão, essa pessoa sai da empresa e logo entra outra, que vai repetir o comportamento”

A empresa cliente pode disponibilizar na plataforma da SafeSpace seu código de ética, cartilhas contra o assédio e qualquer informação relevante para ajudar a educar os colaboradores.

“Se estamos falando de progresso, é preciso entender onde está a causa do problema para melhorar o ambiente de trabalho e a cultura da empresa a longo prazo.”

UMA NOVA FERRAMENTA VAI PERMITIR DENÚNCIAS COLETIVAS

Por ora, a empreendedora prefere não revelar o número total de clientes, mas diz que, em novembro, a startup fechou cinco novos contratos.

A assinatura do serviço é mensal; o valor varia conforme o número de funcionários do cliente e a opção (ou não) por ferramentas adicionais, como disponibilizar a plataforma em outros idiomas — inglês e/ou espanhol — e dar acesso a stakeholders externos.

Em outubro, a startup recebeu seu primeiro aporte, em uma rodada liderada pelo fundo Maya Capital, com a participação de 11 investidores-anjo, como Ariel Lambrecht (fundador da 99) e Mariana Ramos Dias (CEO da Gupy).

Por questões contratuais, Rafaela não informa o montante — mas diz que ideia é investir em tecnologia para seguir melhorando o produto ao longo dos próximos 12 meses.

Em desenvolvimento, uma nova ferramenta deverá permitir denúncias coletivas, feitas por vários colaboradores sobre um mesmo problema, ajudando a fortalecer e encorajar o grupo.

“É comum um caso acontecer com mais de uma pessoa dentro da mesma organização”, diz Rafaela. “O movimento MeToo mostrou isso, que algumas mulheres esperaram alguém tomar a decisão de denunciar para depois quebrar o silêncio. Queremos usar a tecnologia para fazer essa correlação entre os casos e permitir uma denúncia conjunta.”

 

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DRAFT CARD

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  • Projeto: SafeSpace
  • O que faz: Plataforma para denúncias de caso de má conduta no ambiente de trabalho
  • Sócio(s): Giovana Sasso, Natalie Zarzur e Rafaela Frankenthal
  • Funcionários: 8 (com as sócias)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2020
  • Investimento inicial: R$ 50 mil
  • Faturamento: Não informado
  • Contato: [email protected]
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