Ela empreendeu a InspireIP sem saber o que era “startup”. Hoje, usa o blockchain no direito autoral e já lançou até NFTs do Silvio Santos

Marina Audi - 3 maio 2022
Caroline Nunes, empreendedora da InspireIP (foto: Edu Moraes).
Marina Audi - 3 maio 2022
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Você torce o nariz para o hype do NFT? Para tirar o ranço do tema, talvez ajude saber que a tecnologia tem como base o blockchain e já beneficia quem trabalha com a criatividade e gera propriedade intelectual, ou IP. Entram aí inventores, cientistas, intelectuais, escritores, compositores, fotógrafos, produtores audiovisuais, artistas plásticos…

A razão é simples: o registro público de transações em tempo real – armazenados em blocos de dados encadeados, porém descentralizados, na rede mundial de computadores – facilita a validação da autoria de patentes, canções, livros, jogos (de tabuleiro e online), conteúdos e tudo o mais que a mente humana consegue materializar. 

Em 2020, Caroline Nunes, advogada especialista em propriedade intelectual, decidiu entrar nesse mercado. Ela é a fundadora e CEO da InspireIP. A startup mantém uma plataforma proprietária para registros de propriedade intelectual (protegidos em mais de 170 países). 

“O registro confere um meio de comprovar a autoria e anterioridade dos direitos autorais e o blockchain mostra-se o meio perfeito para realizar esse registro de trabalhos artísticos, marcas e patentes, uma vez que é transparente, inviolável e imutável”

A InspireIP também provê soluções customizadas de criação, registro e comercialização de NFTs, e articula ações no metaverso voltadas para o B2B (com valor médio de 50 mil reais por campanha).

Em novembro de 2021, um ano depois do lançamento de sua plataforma, Caroline captou uma rodada de investimento semente de 1 milhão de reais. Atualmente, ela se prepara para captar a rodada série A.

Hoje, a InspireIP tem a plataforma de registro de propriedade intelectual (um documento registrado com Certificado de Autoria custa 50 reais; a assinatura mensal sai por 230 reais e inclui cinco registros; e a assinatura anual fica em 2 600 reais e inclui 84 registros); e outra para criação de NFTs atrelada ao Marketplace de NFT, que já conta com uma base com mais de 10 mil usuários. 

“A tecnologia NFT é disruptiva porque, pela primeira vez, temos possibilidade de ter e transacionar um ativo digital, um IP original. Até então, tudo que era enviado pela internet era uma cópia” 

Os projetos com NFT da InspireIP são desenhados sob medida, com custo variável. Em geral, a startup cobra entre 10% e 20% do valor da venda dos NFTs em leilão no marketplace próprio, além de uma remuneração pelo trabalho de estruturar a estratégia de lançamento.

Leia a seguir os principais trechos da conversa que Caroline teve com o Draft:

 

Como e quando você percebeu a precariedade do registro de propriedade intelectual no Brasil?
Houve dois momentos. Um foi quando eu ainda estava morando na Califórnia por conta do mestrado e um amigo veio me sondar para saber como se fazia para proteger um jogo de tabuleiro.

Ele tinha criado um jogo e queria apresentar a uma empresa grande. E me perguntou: “Como garantir que essa empresa não vai simplesmente pegar a minha ideia, replicar e não me dar nada?” 

Eu respondi: “Não tem como você garantir isso, porque a ideia a gente não consegue registrar. Não existe um meio de protegê-la dessa forma. O direito autoral só vai cobrir a arte do jogo e a história, mas não vai cobrir as regras especificamente. Não dá pra registrar patente, porque o registro da marca só vai proteger o nome do jogo…”. Aí, ele desistiu.

O segundo clique foi quando eu voltei pro Brasil em 2020 e quis realmente trabalhar com isso. Entrei no site da Biblioteca Nacional e vi aquele texto gigante… você tem que imprimir várias páginas, rubricá-las, mandar pelos Correios e demora 180 dias. Por que isso? 

A legislação diz que os direitos autorais são protegidos no momento da criação. Você registra como meio de prova. Mas você está protegido desde a criação, então não tem necessidade de toda essa burocracia. 

Ao fim de seu mestrado (em direito em mídia e entretenimento pela University of Southern California), a pandemia lhe obrigou a ficar no Brasil. Foi quando você decidiu empreender em tecnologia usando blockchain. Desde quando você estuda blockchain, uma área tecnológica particularmente masculina na qual você se destaca hoje?
Tem uma história engraçada sobre isso. Em 2014, meu ex-namorado tinha acabado de sair do golpe da TelexFREE [a empresa com sede em Vitória teria montado um esquema similar ao de pirâmide financeira sob a fachada de uma provedora de telefonia via internet (VoIP), sem a autorização da Anatel]. 

Tudo que surgia com promessa de dar dinheiro fácil ele entrava… Aí, veio me perguntar o que eu achava de minerar Bitcoin . Eu falei: “Você vai entrar em esquema de pirâmide de novo?” Ele desistiu. Hoje, estaria rico se tivesse minerado Bitcoin! (risos

Depois disso, passei um tempo sem nem tocar em criptomoeda ou cogitar nada com blockchain. Em 2018, ensaiei investir em cripto… li alguma coisa sobre a tecnologia, mas eu só fui realmente me aprofundar quando fui fazer mestrado na Califórnia

Peguei várias cadeiras de tecnologia e várias de propriedade intelectual. Quando voltei ao Brasil, uni a tecnologia blockchain à expertise que eu tinha em propriedade intelectual e fundei a InspireIP.

Falando desse aprofundamento na tecnologia blockchain, você teve que superar alguma dificuldade, além da questão técnica, para cogitar fundar uma empresa que usasse essa tecnologia?
O fato de eu não ter visualizado todas as dificuldades me fez fundar a InspireIP muito mais rápido do que se eu tivesse previsto tudo que viria pelo caminho. 

Inclusive, eu dizia que nunca ia ser empreendedora. Meu pai, Arthur Ferreira Nunes, é empreendedor, criou vários negócios – nenhum que realmente deu supercerto. 

Sempre o admirei porque ele tentava, falhava, tentava de novo e nunca se deixava abater. Quando vi, eu entrei nessa também…

Na época em que fundei a InspireIP, eu nem sabia o que era “startup” – e não sabia que estava fundando uma. O que me vinha na cabeça era: “Preciso solucionar um problema pontual pra conseguir colocar um serviço no ar”. Foi basicamente isso

Uma das dificuldades no começo foi achar time pra desenvolver a plataforma, aqui no Brasil. A gente estava no começo da popularização da tecnologia blockchain, que saía da área de criptomoedas e ia para área de desenvolvimento, mas ainda não era um negócio superpopular como é hoje. 

Como tive muita dificuldade de achar um time de desenvolvimento, eu adentrei ainda mais na tecnologia, porque precisei estudá-la para ensinar os times de desenvolvimento o que eu queria fazer. 

Você chegou a fazer o trajeto clássico do empreendedor de tecnologia – ver quais eram as soluções disponíveis, fazer uma Prova de Conceito, rodar um MVP?
Eu já sei que o meu caminho foi completamente inverso (risos)! Comecei a fazer manualmente. Eu comprava criptomoeda, no caso o Bitcoin e mandava de uma Exchange [plataforma para compra, venda e troca de criptomoedas] para uma carteira digital minhaE nessa transação do OP Return, eu registrava a hash – a impressão digital do arquivo [função matemática que gera uma impressão digital da entrada e não há como gerar a informação original duas vezes]

Aprendi a fazer isso em um vídeo do YouTube que ensinava como gravar para sempre “eu te amo” em blockchain como presente no Dia dos Namorados! Entendi que podia usar aquilo para gravar arquivos.

De uma plataforma de registro de propriedade intelectual, a InspireIP enveredou para outras duas áreas: o marketplace de NFT, através do qual realizou o
primeiro leilão de NFT do Brasil (em junho de 2021), da obra Fronteira Físico/Digital, do artista baiano Bel Borba; e, em seguida, projetos no metaverso. Como foi esse trajeto?
À medida que a plataforma caminhava, eu fui me apaixonando cada vez mais pela filosofia da tecnologia blockchain, que é descentralizada e não precisa de um órgão central. 

Eu queria construir uma plataforma completamente descentralizada, em que a gente não tivesse poder nenhum de controle sobre o que está sendo feito ali dentro. 

Antes de todo o hype de NFT, a gente já tinha pensado que seria muito legal unir NFT e propriedade intelectual em uma plataforma única, na qual as pessoas que registrassem a propriedade intelectual já recebessem automaticamente o NFT – mesmo que não quisessem comercializar

No meio do processo de criação dessa plataforma de NFT, entrou o nosso CTO, Romain Lombardo, especialista em blockchain, com mestrado e doutorado na área, o que deu um boom no desenvolvimento. Corremos bastante, porque pensamos que seria muito legal conseguir sair na frente.

Demoramos três meses, foi relativamente rápido. Lançamos a plataforma de NFT e quem chegou para gente não foram pessoas querendo registrar a propriedade intelectual e transformar em NFT, que nesse caso seria um coadjuvante. Quem chegou queria usar NFT como peça principal! 

O primeiro case que fizemos foi com Bel Borba, em esquema freemium – ele arcou com os custos de fazer o quadro e a gente arcou com as outras despesas. “Fatiamos” a obra física dele em 100 pedaços, cada pedacinho foi um NFT diferente. Aí, leiloamos, com edital, tudo certinho

Foi bem interessante, deu uma mídia legal, a gente conseguiu vender alguns pedaços [da obra]. Outros, conseguimos vender depois do leilão, por um preço maior, então considero que foi um sucesso.

Depois, a plataforma começou a ir para um lado que se distanciava da primeira ideia que eu tinha imaginado – eu ainda quero fazer essa plataforma! 

O marketplace de vocês é restrito para artistas e empresas convidadas. Por quê?
Quando criamos o sistema, tínhamos medo da questão da autoria das obras que eram transformadas em NFT ali dentro, porque é uma coisa que ainda dá muito problema em outros marketplaces de NFT que não se atentam a isso.

Marketplaces totalmente abertos têm um problema relacionado a direitos autorais, porque as pessoas chegam com a obra que não é delas, transformam em NFT e vendem. Então, a gente teve receio que isso acontecesse com a nossa plataforma se a deixássemos aberta 

Inclusive, teria sido muito mais fácil deixar a plataforma aberta, mas fiz questão de ter um processo de waitlist para autorizar as pessoas a entrarem na nossa plataforma e a criar NFT. Então, primeiro a gente verifica se a pessoa tem todos os direitos sobre a obra, depois permitimos acesso. 

A pessoa tem que preencher o formulário provando que é detentora daqueles direitos. Então, mesmo que não seja com um certificado de registro da nossa plataforma blockchain, tem de ser com algum outro tipo de registro. 

Vocês têm projetos de NFTs à venda no marketplace de JetLag Music e Jefferson Cesar. Há dois cases B2B que envolvem SBT (NFTs do Silvio Santos em homenagem aos 40 anos da emissora têm cenas do Topa Tudo por Dinheiro, como a icônica cena em que Silvio cai em um tanque de água) e Spotify. Pode contar como se deram esses projetos?
Quando o SBT nos procurou, foi uma outra virada de chave. Foi interessante porque tivemos de passar por todo o trâmite interno da emissora e a gente nunca tinha lidado com uma empresa gigante. Falamos com várias pessoas diferentes ali dentro – jurídico, contabilidade – e deu certo porque fizemos juntos e demos todo o suporte por aqui para colocar os NFTs à venda. 

A gente trabalhou ajudando na questão estratégica: orientamos na escolha de quais imagens deveriam virar NFTs; apoiamos na questão jurídica; em direitos autorais, fizemos os contratos… 

Na questão tributária também orientamos como declarar isso na contabilidade, em como tributar – na época não tinha absolutamente nada sobre isso, então tivemos o apoio do Baptista Luz Advogados. É uma solução 360º, que oferecemos até hoje às marcas.

O resultado do leilão foi surpreendente. Os lances começaram em 40 reais e terminaram em 16 mil reais. Foram mais de 80 lances, o leilão foi 100% descentralizado e o pagamento foi feito em criptomoedas 

Pela relevância da emissora, conseguimos chamar a atenção de grande parte da população para os NFTs – e isso é mais importante do que o próprio resultado do leilão.

No caso de Spotify foi um projeto interno que veio pela SOKO, uma agência de publicidade. O Spotify presenteou quatro artistas selecionados no programa Radar [focado no apoio a artistas em ascensão] com NFTs, como prêmio de reconhecimento. 

A gente criou esses NFTs – em que está escrito “O Spotify acredita tanto em você, que te dá esse NFT pra quando você for grande, poder vendê-lo e arrecadar dinheiro” – e fizemos a transferência para os artistas.

Em março, você foi a Dubai apresentar na Expo Crypto Summit um projeto de Crypto Gallery desenvolvido para a Cryga, que por sua vez se uniu ao Museu FAMA para criar uma plataforma descentralizada para negociação, registro e autenticação de obras de arte, físicas e NFTs, 100% registradas em blockchain. Este é um projeto white label da InspireIP?
A gente começou mirando em vários lados e agora estamos afunilando de novo nossa solução. A história foi assim… criamos um time de tecnologia muito bom, meu sócio é dessa área, já coordenou vários times de desenvolvimento e tem muito contato com desenvolvedores. 

E estamos vivendo um apagão de desenvolvedores: várias empresas grandes têm problemas com falta de desenvolvedores no mercado – principalmente o desenvolvedor de blockchain. 

Então, algumas grandes empresas começaram a nos procurar para desenvolverem soluções próprias de blockchain. Como somos uma startup, a gente não nega serviço, e começamos a ajudar essas empresas a estruturar soluções

Uma dessas empresas foi a Cryga. Só que [nesse caso] a gente não ajudou só com a parte tecnológica, como time terceirizado, que faz o serviço e tchau… Entramos na sociedade. 

A InspireIP é sócia da Cryga na Crypto Gallery, e toda a parte de tecnologia, a gente desenvolve por aqui. Isso é exceção: a gente não costuma entrar no risco das operações.

É uma solução completamente customizada. Usamos a nossa plataforma de NFT como base, mas desenvolvemos contratos inteligentes próprios para eles, desenvolvemos um módulo completamente novo de provenance [que permite verificar alterações nas informações de propriedade] em blockchain. 

Agora, estamos mais focados em fazer a instalação de APIs das plataformas de IP e de NFTs em outros sites e empresas do que [projetos] white label. É mais trabalhoso fazer um white label do que instalar uma API. 

Sobre o braço de projetos para o metaverso: recentemente, vocês investiram 3.25 ETH (cerca de 75 mil reais na época) para comprar um terreno no The Sandbox, jogo play to earn que permite desenvolver minigames dentro do game e funciona como o principal metaverso do mercado de criptomoedas. Qual foi o objetivo dessa aquisição?
Começamos a trabalhar com a criação, comercialização e realização de campanhas com NFTs junto a empresas em junho do ano passado. De lá para cá, tem ficado evidente que a tecnologia blockchain será fundamental para o fortalecimento do metaverso – e ajudará a criar um ecossistema sustentável para todos os entusiastas. 

A curto prazo, [o blockchain] terá um grande impacto na forma que as pessoas se relacionam e, em alguns anos, será capaz de transformar as profissões que conhecemos hoje, trazendo novas oportunidades de geração de renda para os profissionais. Então, decidimos comprar um terreno no metaverso The Sandbox.

Agora, temos a oportunidade de realizar campanhas mais fortes junto às marcas, abrindo as portas para experiências mais robustas e realistas do que simplesmente pagar por anúncios na internet

Pretendemos expor e comercializar nossos NFTs no metaverso, bem como organizar eventos com as empresas parceiras, exposições de arte e encontros com a comunidade. Também pensamos em alugar o terreno para empresas que querem surfar um pouquinho desta onda, mas que não estão prontas ainda para comprar um terreno. 

Estamos estruturando a sede da InspireIP no metaverso, junto com um time de três arquitetos “da vida real”… para que as pessoas possam entrar e ver o que a gente oferece – registro de propriedade, NFT para compra. É como se elas entrassem no nosso site, só que estão entrando na nossa sede digital.

Você é defensora da internet descentralizada, a Web3. Em um artigo de sua coautoria (“O metaverso e a lei”), publicado em março, são elencados três aspectos jurídicos desafiadores: direito do consumidor, proteção de dados e crimes. Pensando nas redes sociais e na proliferação de fake news, como contrabalançar isso dentro de uma estrutura como a Web3?
Sou sim defensora da Web3, a web descentralizada, porque é uma web livre de censura. O ponto negativo é o seguinte: não há tanta facilidade em utilizá-la. 

Não é fácil comprar um terreno no metaverso descentralizado. Não é qualquer pessoa que está disposta a sentar e aprender a usar… até por medo. Tem muito estigma ainda sobre criptomoedas, sobre internet descentralizada 

Sobre fake news, digo que acontecem mais por as redes sociais serem centralizadas. Elas têm vários algoritmos de inteligência artificial por trás que ajudam a alavancar essas fake news. Quem viu o filme O Dilema das Redes [disponível na Netflix] entende como o algoritmo funciona: quanto mais fake news você vê, mais vão aparecer para você. 

Talvez isso não acontecesse numa rede social descentralizada, em que é a comunidade quem impulsiona. As pessoas têm uma falsa sensação de segurança quando a gente fala de centralização: “estou protegido por um órgão, por um governo”. Mas, será?

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DRAFT CARD

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  • Projeto: InspireIP
  • O que faz: Plataforma para registro de propriedade intelectual usando blockchain; também provê soluções de NFTs e metaverso.
  • Sócio(s): Caroline Nunes, Fabiano Nagamatsu, Anderson Nogueira, Jorge Yamaniski, Romain Lombardo
  • Funcionários: 20
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2020
  • Investimento inicial: R$ 40 mil
  • Contato: [email protected]
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