“Ver esse filme foi traumatizante. Percebi que espalhar o conhecimento sobre a cannabis era uma obrigação moral”

Leonardo Maran Neiva - 12 fev 2020
Carolina Nocetti: a médica abriu os olhos para a cannabis medicinal ao procurar tratamento para a insônia, nos EUA.
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Em 2012, vivendo em Nova York, a médica Carolina Nocetti estudava até 15 horas por dia para prestar o exame de revalidação de seu diploma, que lhe permitiria exercer sua profissão nos Estados Unidos. Uma rotina intensa que destruía a qualidade do seu sono.

“O exame é muito difícil”, explica. “Eu não conseguia comer nem dormir direito, pois tinha que absorver muita informação. E como precisava acordar todo dia às 6h da manhã, procurei uma opção para dormir melhor.”

Depois de tentar um remédio (Zolpidem, que achou muito forte e a deixou com medo de se viciar), Carolina ouviu de um colega médico a sugestão de tentar a cannabis medicinal.

A alternativa jamais tinha passado pela sua cabeça:

“Não era nem sequer preconceito contra as pessoas que usavam. É que, para mim, a ideia de cannabis medicinal simplesmente não existia. Era um conceito alienígena”

A cannabis melhorou seu sono — e abriu seus olhos para o empreendedorismo: Carolina é a fundadora da International Cannabis Academy, ou InterCan, que oferece cursos sobre a aplicação medicinal da planta, preenchendo a lacuna de informações sobre o tema.

SEM ACHAR LIVROS SOBRE O ASSUNTO, ELA VIU QUE O PRIMEIRO DESAFIO ERA A COMUNICAÇÃO

Em julho de 2019, o número de autorizações de importação de medicamentos à base de cannabis pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ultrapassou as cifras de 2018 inteiro. Um movimento que mostra que a cannabis medicinal deixou de ser um “conceito alienígena” — mesmo no Brasil.

Oito anos atrás, porém, o cenário era diferente. A curiosidade levou Carolina a pesquisar o assunto na internet (as bibliotecas e universidades americanas também não tinham muito a dizer sobre o tema). Navegando, deparou com uma série de indicações, incluindo a aplicação da cannabis para esquizofrenia, psicose e epilepsia. 

“Existia um underground mega engajado no assunto — mas fechado numa bolha. Na biblioteca da Universidade Cornell, uma das mais importantes do mundo, não encontrava um livro falando sobre isso. Foi quando percebi que o primeiro desafio para a disseminação da cannabis medicinal era a comunicação”

A empreendedora conta que, no início dos anos 2010, os produtos com cannabis nos EUA ainda eram feitos de forma muito “hippie”, com embalagens pouco atrativas (feias mesmo). Além disso, a cannabis medicinal não chegava aos médicos e consultórios, pois ninguém se dava ao trabalho de ensinar os profissionais sobre os usos da planta.

A partir do que descobriu, ela decidiu dar o pontapé inicial numa linha própria de cannabis medicinal e terapêutica. A ideia era criar produtos de ponta, que tivessem apelo com a classe médica e ajudariam a limpar décadas de visão negativa sobre a planta.

 NOS EUA, ELA AJUDOU A CRIAR UMA EMPRESA DE CHOCOLATES TERAPÊUTICOS COM DERIVADOS DA CANNABIS

Carolina detalhou o plano de negócio, um investidor-anjo apostou na ideia, e assim Carolina se mudou de Nova York para Los Angeles, onde o uso medicinal da cannabis é legalizado desde 1996.

Ali, em 2015, ela ajudou a criar e liderou o setor médico de duas novas organizações: a OHM Sweets, de chocolates terapêuticos, parte deles produzidos com derivados de cannabis, e a OHM Wellness, associação voltada a produtos de cannabis medicinal.

“Era proibido fazer propaganda de cannabis em certos lugares, mas conseguimos divulgar os doces em eventos de empresas grandes, como Snapchat, Patrón, Jägermeister e no MTV Movie Awards. Já com a associação, conseguia visitar dispensários da planta junto a médicos e pacientes, apresentando a eles as propriedades da cannabis”

Com o diploma de medicina revalidado, Carolina passou a prestar consultoria técnica para empresas americanas, levando esclarecimento sobre o uso medicinal da planta. Entre essas empresas, diz, estava a Charlotte’s Web, que hoje figura entre as principais representantes da indústria de cannabis no mundo.

ASSISTIR AO DOCUMENTÁRIO “ILEGAL” TRANSFORMOU DE VEZ SUA VISÃO SOBRE O TEMA

Foi nessa época que Carolina assistiu a um documentário que é um marco do tema no Brasil: Ilegal, de Tarso Araújo e Raphael Erichsen. Coproduzido pela Superinteressante, o filme (de 2014) mostra a luta de famílias brasileiras para conseguir o acesso legal à cannabis medicinal. 

“Ver esse filme foi traumatizante”, afirma Carolina. “Naquele momento, percebi que era uma obrigação moral espalhar o conhecimento sobre a cannabis.”

Leia também: “Um mercado de cannabis legalizado enfraquece a criminalidade e gera receita para educação e saúde”

Em 2017, aproveitando que a Charlotte’s Web tinha interesse em expandir para o Brasil, ela retornou no comando da parte técnica do empreendimento — e decidida a ficar. Antes mesmo de pisar no país, entrou em contato com famílias brasileiras que buscavam o medicamento. 

“Eu ficava o dia inteiro pendurada no telefone, respondendo centenas de perguntas: qual a dose correta, como cultivar, quais as indicações… Na época, não conseguia nem falar direito com o pessoal do Brasil, nem fazer consultoria nos EUA”

Logo, ela percebeu que era urgente criar um ecossistema de cannabis medicinal. Para levar à frente essa ideia, escolheu se desligar do operacional e investir em educação e atendimento ao paciente. Era hora de ensinar o que sabia ao maior número de pessoas possível.

UMA REDE DE MÉDICOS COLABORADORES AJUDA A MINISTRAR OS CURSOS

Assim, em 2017, a médica-empreendedora criou a InterCan para organizar cursos com regularidade mensal. Hoje, o escritório funciona em um coworking no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Dois funcionários da InterCan dão suporte na coordenação da grade de cursos presenciais, a cargo de Carolina e de uma rede de médicos colaboradores.

O carro-chefe é um curso de oito horas, realizado ao longo de um dia. Custa R$ 1 950 por pessoa; cada turma reúne cerca de 35 médicos. 

“Nesses anos, já eduquei muita gente sobre a cannabis medicinal. Juntando tudo, dou aula com frequência quase semanal, às vezes até duas vezes por semana”

Atualmente, apenas 1 107 dos 450 mil médicos do Brasil estão autorizados pela Anvisa a prescrever a cannabis medicinal. Mesmo a compreensão sobre esses fármacos é restrita no país, já que suas propriedades não são ensinadas em universidades e ainda há poucas referências em livros e estudos.

O foco da InterCan é a aplicação clínica da planta e a melhoria da qualidade de vida que ela pode trazer aos pacientes. Carolina também dá aulas em pós-graduação e faz palestras sobre o tema em congressos e eventos. 

COM A INTERDOC, O OBJETIVO É CUIDAR — E ENSINAR PACIENTES A SE CUIDAREM

Em fevereiro de 2019, a médica criou seu segundo negócio, a Interdoc. O objetivo do serviço é fazer um cuidado integrado e estruturado do quadro médico do paciente em tratamento com cannabis. 

Com um atendimento mesclado entre online e presencial, a empresa conta com 15 colaboradores, representantes de áreas como fisioterapia, enfermagem e farmacêutica.

Segundo Carolina, alguns nem precisam ter grande conhecimento sobre cannabis: uma vez que o atendimento é integrado, caso um paciente procure um médico-associado, este pode consultar outros colaboradores de forma remota, de maneira que a gestão do quadro clínico é feita em conjunto entre os profissionais.

Leia também: O futuro da cannabis medicinal no Brasil é uma incógnita. Conheça as empresas que resolveram comprar essa briga

A equipe acompanha o tratamento por até três meses. Nesse período, eles ensinam o paciente ou cuidador a fazer os ajustes e acompanhamento terapêutico de forma autônoma, evitando a dependência prolongada do auxílio médico. 

Dar maior liberdade a pacientes e médicos por meio do conhecimento, segundo Carolina, é o objetivo tanto da InterCan quanto da Interdoc.

A Interdoc oferece ainda treinamento e auxílio técnico para implementação de um programa semelhante que dê maior autonomia do paciente em clínicas e consultórios pelo Brasil.

AS FICHAS DO SETOR ESTÃO DEPOSITADAS HOJE NO CONGRESSO

Além de comandar os dois empreendimentos, Carolina atua como conselheira técnica de cannabis medicinal para empresas do Brasil e também dos EUA, Canadá, Colômbia, Paraguai e Uruguai. Uma delas é a Indeov, que conecta pacientes, médicos e produtores de cannabis medicinal e foi selecionada pela ONU para o programa de aceleração global Accelerate 2030.

Em novembro, Carolina esteve na Câmara dos Deputados para falar sobre o uso medicinal da cannabis a convite da bancada ruralista. Ela acredita que o tema vem ganhando simpatizantes no Congresso. Esse seria um ponto crucial para derrubar as limitações que existem para a produção e venda do produto no Brasil.

Na sua visão, a resolução da Anvisa — que em dezembro liberou a venda de remédios à base de cannabis em farmácias, mas vetou o cultivo da planta no país — é um avanço ainda muito pequeno. As regras impostas pela agência a empresas e pacientes encarecem a operação, e a prescrição permanece restrita a entidades e hospitais de grande porte.

 Para Carolina, as fichas do setor estão depositadas mesmo no Congresso, que atualmente debate “a comercialização de medicamentos que contenham extratos, substratos ou partes da planta cannabis sativa em sua formulação”, de acordo com o texto do projeto de lei 399/2015.

 “Por isso o PL 399/2015, que hoje está sendo discutido numa comissão especial na Câmara, é tão importante. Porque a lei se sobressai à resolução da Anvisa. A esperança toda está aí.”

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Draft Card Logo
  • Projeto: InterCan
  • O que faz: Ensina médicos sobre os usos medicinais da cannabis
  • Sócio(s): Carolina Nocetti
  • Funcionários: 2 (mais uma rede de médicos colaboradores)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2017
  • Investimento inicial: R$ 30 mil
  • Faturamento: R$ 1 milhão (desde dezembro de 2017)
  • Contato: www.intercan.academy/contato
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