O capacitismo exclui milhões de pessoas com deficiência do mercado de trabalho. A luta da Egalite é ajudá-las a conquistar um emprego

Dani Rosolen - 20 set 2022
Guilherme Braga, fundador da Egalite.
Dani Rosolen - 20 set 2022
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Pense bem: quantas pessoas com deficiência fazem parte do seu círculo social? Você tinha amigos na escola que eram PcD? E na faculdade?

Entre seus colegas de trabalho ou na equipe que você gerencia, há algum cadeirante, pessoa cega ou surda?

Até fazer um intercâmbio para os Estados Unidos, no Ensino Médio, Guilherme Braga, na época com 15 anos (hoje, tem 35), também não conviva com pessoas com deficiência no seu dia a dia. Mas na escola em que estudou, no interior de Michigan, sua dupla de atividades em Química, Andrew, era um garoto cadeirante.  “Ele foi uma pessoa extremamente importante para a minha adaptação, um grande amigo”, diz.

Essa amizade fez Guilherme abrir os olhos para os desafios de uma pessoa com deficiência — e a importância de um espaço acolhedor:

“Entendi que quando a gente está em um ambiente onde existem menos barreiras, a deficiência se torna cada vez menos importante… Percebi as características dele que realmente se destacavam. Ele era um cara super engraçado e inteligente. Isso me trouxe um olhar para além da deficiência”

As projeções variam, mas segundo o Censo do IBGE de 2010, o número de pessoas com deficiência no país pode chegar a 45 milhões de pessoas (quase 25% da população brasileira atual).

Já naquela época de adolescente, Guilherme aprendeu a ver o potencial dessas pessoas para além das suas limitações físicas. Esse olhar seria fundamental para que, mais tarde, em 2010, ele fundasse a Egalite (lê-se “egalitê”), uma startup de empregabilidade para PcD com sede em Porto Alegre.

GUILHERME CURSAVA DIREITO MEIO A CONTRAGOSTO QUANDO RESOLVEU EMPREENDER UM NEGÓCIO DE IMPACTO

A princípio, Guilherme queria ser advogado. Ao longo da faculdade, porém, ele foi se desencantando com essa escolha. E, ainda durante o curso, fundou com dois amigos uma empresa de representação comercial que atendia uma marca esportiva.

Com sua veia empreendedora, Guilherme se via cada vez mais desconectado do curso de direito. Mas acabou sendo incentivado por um chefe de um de seus estágios, na Amcham, a terminar a graduação.

“Quando falei que queria largar o curso para fazer administração, ele me aconselhou a prosseguir e depois fazer uma pós ou algo assim, porque o direito seria um diferencial”, lembra Guilherme.

O estudante acatou a ideia, mas continuou com o olhar aberto a novas possibilidades. Até que viu um cartaz na faculdade onde estudava, a PUC, do primeiro torneio empreendedor da universidade, em 2007.

Guilherme se juntou a alguns amigos para participar da competição. Eles tinham três meses para apresentar um plano de negócios. Porém, o prazo ia se esgotando e nada de chegarem a uma ideia satisfatória.

“Faltando uma semana para o prazo, eu estava assistindo a uma palestra sobre direito no trabalho e os palestrantes falavam da lei de cotas, mas com uma visão muito equivocada na minha percepção, dizendo que a empresa teria que arcar com uma pessoa com deficiência que não iria render tanto”

Foi ali que Guilherme teve a sacada do projeto que seria apresentado no torneio — já com o nome de Egalite (do francês egalité, “igualdade”). No fim das contas, o grupo dele conquistou o terceiro lugar na competição.

Depois, durante uma entrevista para participar de uma incubação na PUC (um dos prêmios do torneio), os amigos chegaram à conclusão de que não tinham uma visão apurada de negócios, e acabaram deixando a proposta de lado. Mas não por muito tempo.

A LEI DE COTAS JÁ TEM MAIS DE 30 ANOS. MESMO ASSIM, HÁ MUITAS BARREIRAS A SEREM VENCIDAS

Cada um seguiu seu caminho. Guilherme, já formado, conta que estava crescendo no emprego, trabalhando em uma empresa de exportação, mas não se sentia totalmente feliz.

Então, viu no projeto da época da faculdade a chance de empreender com algo que lhe desse propósito. Em dezembro de 2009, pediu demissão e criou o CNPJ da empresa, que foi lançada oficialmente em janeiro de 2010, com 120 mil reais captados via recursos de subvenção do programa Prime, da FINEP.

O que a Egalite faz é promover a conexão, capacitação e inclusão de PcD no mercado de trabalho (os clientes, ou seja, quem paga, são sempre as empresas; os profissionais não desembolsam nada para participar dos processos).

Não se trata de “caridade”, longe disso. Recentemente, em tempos de ESG, ganhou força a percepção de que diversidade é um ingrediente obrigatório para quem quer inovar:

“Fora a questão de inovação e melhora do clima na equipe, a Accenture fez uma pesquisa que mostra especificamente os resultados financeiros da inclusão de profissionais com deficiência. Empresas que são consideradas campeões da inclusão têm uma performance financeira melhor do que as que não são”

Em tese, aliás, um negócio como a Egalite nem deveria precisar existir. A lei de cotas (Lei 8.213/91), de 1991, estabelece que empresas com equipes com 100 funcionários ou mais devem ter um percentual mínimo de 2% a 5% de colaboradores PcD em seu quadro (o índice cresce conforme o tamanho do time aumenta).

A realidade, porém, não é tão simples. Segundos dados do Relação Anual de Informações Sociais, de 2020, pessoas com deficiência registradas em empregos formais no país representam apenas 1% do total de contratações em regime CLT, ou cerca de 486 mil profissionais.

A EGALITE CRIOU UMA TECNOLOGIA PRÓPRIA E INCLUSIVA DE SELEÇÃO PARA FACILITAR O RECRUTAMENTO DAS EMPRESAS

No começo de sua operação, quando uma empresa contratava a Egalite para realizar o processo de recrutamento e seleção de uma pessoa com deficiência, um psicólogo entrevistava o candidato, fazia um relatório manual, que depois evolui para um sistema. Mas era tudo muito “artesanal”.

Para ganhar escala, o caminho seria possível empacotar esse processo em um software. Guilherme diz que ele e os sócios não encontraram no mercado testes de perfil de avaliação comportamental com acessibilidade. A alternativa, então, seria construir essa ferramenta do zero.

“Fizemos uma parceria com a PUC, que cedeu bolsistas para essa missão. Criamos uma avaliação de perfil comportamental e fizemos uma validação com mais de mil pessoas. Comparando o teste com a entrevista, obtivemos 87% de assertividade na primeira versão, então decidimos construir o software”, diz.

“A ferramenta leva em conta diversas questões de inclusão. Como descobrimos que 95% dos candidatos acessam a plataforma pelo celular, ela foi construída para o mobile e é acessível para o web. Temos também a preocupação de usar uma linguagem simples, ter contraste, zoom, tradução em libras pra pontos mais críticos etc.”

O software ficou pronto em 2014; com ele, as próprias empresas podem entrar na plataforma para buscar profissionais. E vice-versa, os candidatos com deficiência também usam a ferramenta para se colocarem à disposição do mercado. Hoje, mais de 75 mil PcD inscritos no site.

É IMPORTANTE ACOMPANHAR O DESENVOLVIMENTO DOS PROFISSIONAIS CONTRATADOS E PLANEJAR AÇÕES DE CONSCICENTIZAÇÃO

Cumprir a cota e promover ações ligadas à causa no Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência (21 de setembro, a próxima quarta-feira) são ações importantes por parte das empresas, claro. Mas só isso não basta.

Mesmo adequar o escritório para receber os colaboradores PcD ainda é apenas parte da missão. Segundo Guilherme, as empresas precisam ir além e ajudar a quebrar os preconceitos.

E preconceito contra pessoas com deficiência tem nome:

“O capacitismo ainda é o maior desafio. A gente percebe um preconceito velado e muitas vezes uma questão inconsciente de fazer essa conexão entre a deficiência e a ineficiência. E uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra”

Hoje, diz Guilherme, a Egalite tem uma estrutura bem definida de processos para implementar essa mudança de mentalidade através de seus programas.

“Fazemos um diagnóstico para entender o que a empresa tem de positivo, que pode agregar, e onde estão as barreiras”, diz Guilherme. O passo seguinte é definir um roadmap de ações estratégicas a serem realizadas ao longo dos anos, de olho em indicadores que tangibilizem o impacto.

“A inclusão não só pode como deve trazer resultados”, afirma Guilherme. “Queremos analisar turnover, nível de performance desses profissionais, o quanto estão progredindo na carreira…, uma série de fatores para entender o que é sucesso para o programa de inclusão.”

A PLATAFORMA ATENDE GRANDES CLIENTES (MAS NÃO SÓ) E JÁ AJUDOU A INSERIR 14 MIL PROFISSIONAIS NO MERCADO

Em 12 anos de operação, a Egalite atendeu 500 empresas, incluindo Citi, EY, McDonalds, Mercado Livre, Vale, CCR, Dia, Ultragaz, John Deere, Yara e P&G.

Guilherme cita um case construído junto com a Ambev no Sul do país. A Egalite ajudou a empresa a incluir muitos profissionais na região e a cumprir todos os objetivos pretendidos, o que fez com que o braço de São Paulo também quisesse contratar a startup.

Ele lembra das descobertas feitas durante as pesquisas com os funcionários:

“Todo mundo sabe como é a cultura de resultados da Ambev, o quanto as pessoas são cobradas e exigidas ali. Só que diferente do que a gente imaginava, os profissionais com deficiência adoravam trabalhar lá porque se sentiam pertencentes, eram cobrados da mesma forma e tinham a mesma possibilidade de crescimento”

Ao todo, a Egalite já ajudou a inserir mais de 14 mil pessoas com deficiência no mercado. São muitas histórias, impossível recordar todas, mas Guilherme gosta de destacar um caso, o do Roger.

Por conta de uma doença congênita, Roger precisou ter uma das pernas amputadas em 2010. Quando estava terminando o processo de reabilitação, encontrou uma vaga por meio da startup e depois acabou sendo promovido nesse emprego (ele gravou um depoimento para a Egalite).

SABE AQUELA FRASE “O EXEMPLO TEM QUE VIR DE CASA”? ELA NÃO PODE SER APENAS UM BORDÃO…

Em inglês, walk the talk significa colocar o discurso em prática. Se a Egalite evangeliza o mercado sobre o potencial dos PcD, essa ideia precisa ser praticada “dentro de casa”.

Ao longo dos anos, cinco pessoas com deficiência já passaram pela equipe (que hoje tem um total de sete funcionários). Um deles permanece: é o sócio Djalma Scartezini, que nasceu com paralisia cerebral e tem mobilidade reduzida dos membros inferiores.

Psicólogo, empreendedor e um dos principais especialistas em diversidade e inclusão corporativa do Brasil, Djalma é COO da startup desde junho de 2022. Antes disso, porém, ele foi um cliente da Egalite. Guilherme conta:

“Quando o Djalma liderava a parte de inclusão do Walmart, contratou a Egalite. Foi o nosso primeiro grande projeto. Conseguimos incluir, ao longo de 18 meses, 900 pessoas com deficiência na empresa”

Com o tempo, Djalma passou por outras companhias, mas sempre recriando a relação comercial com a Egalite.

“Ele foi mudando de cadeira, virou gerente da Sodexo, foi liderar a Vivo e em sua última posição estava como gerente sênior da EY”, diz Guilherme. “E foi nos levando junto pelas empresas por onde passou.”

O negócio tem ainda um terceiro sócio, Bernardo Esposito, fisioterapeuta e cunhado de Guilherme. “Ele tem uma atuação muito grande na parte comercial e de marketing e agrega com a formação técnica para ajudar com uma venda muito qualificada.”

DEPOIS DO CHACOALHÃO DA PANDEMIA, ELES ORGANIZARAM “A MAIOR FEIRA DE EMPREGABILIDADE PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA DO MUNDO”

Guilherme conta que, quando a pandemia de Covid-19 foi decretada no Brasil e congelou o mercado, a Egalite perdeu 90% do volume de vagas que tinha para oferecer aos candidatos de sua base.

Meses depois, em julho de 2020, mesmo com algumas empresas retomando as contratações, quase nenhuma vaga era para PcD. O empreendedor então entendeu que a Egalite precisava reagir. E assim, eles criaram a Inclui PcD, uma feira online de empregos, com conteúdos específicos e oferta de vagas.

“Tivemos uma ideia ainda mais arrojada de fazer a feira 100% gratuita para as empresas anunciarem oportunidades. Sofremos muito com a questão de faturamento nesta época, mas se somos uma empresa de impacto, precisávamos olhar para impacto”

A expectativa inicial da Egalite era poder oferecer mil vagas na feira e comercializar três cotas de patrocínio para viabilizar os custos com o evento. Felizmente, a empresa extrapolou as metas: no fim das contas, foram 5 mil vagas de emprego e 17 cotas de patrocínio vendidas.

Com o sucesso, a Inclui PcD ganhou uma segunda edição, em 2021, com 13 mil vagas anunciadas, o que fez com que se tornasse, segundo Guilherme, a maior feira de empregabilidade para pessoas com deficiência do mundo.

A terceira edição da feira também será online e ocorre nesta semana, entre hoje, terça, 20 de setembro, e quinta, 22 (registre-se aqui). Segundo a Egalite, já são 9 mil vagas em empresas que já confirmaram a participação, como EY, Grupo Boticário, Lojas Renner, SAP, TOTVS, Vale, GPA e Coca-Cola.

UM PROJETO PILOTO NO CHILE DEVE INTRODUZIR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA CONTRATAÇÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

A Egalite, diz Guilherme, já conquistou alguns prêmios internacionais, com o Global Grand Challenge Awards, da Singularity University, e o Zero Project, realizado em conjunto com o World Future Council e o European Foundation Center.

“Isso foi abrindo portas para prestarmos consultoria em uma organização da Inglaterra que atua em projetos no Quênia e Bangladesh; depois disso, fomos conectados com uma oportunidade no Chile”, diz.

Esse projeto chileno foi um convite para que a Egalite realizasse um piloto com a Fundação Pacto de Productividad, programa empresarial para promoção de emprego para pessoas com deficiência, e o Banco Internacional de Desenvolvimento (BID), a fim de aplicar inteligência artificial nos processos de contratação de pessoas com deficiência no país.

“Estamos caminhando para o final do projeto piloto em outubro e acreditamos na expansão da Egalite através de parcerias. Temos uma competência no Brasil que podemos levar para outros países como consultoria e uma tecnologia que pode ser usada no formato white label”

Além de estudar os próximos passos da internacionalização, a Egalite agora está concentrada em transformar a Inclui PcD em uma plataforma de recorrência e participar do Programa Plataforma de Inovação Aberta em Inclusão Produtiva, para o qual a empresa foi selecionada pela Artemisia.

“A ideia desse projeto é que a gente crie, em conjunto com municípios, soluções para serem financiadas. Estamos estudando a possibilidade de levar nossas soluções a governos locais para aumentar nosso impacto.”

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  • Projeto: Egalite
  • O que faz: Projetos de empregabilidade para pessoas com deficiência
  • Sócio(s): Bernardo Esposito, Djalma Scartezini e Guilherme Braga,
  • Funcionários: 7
  • Sede: Porto Alegre e São Paulo
  • Início das atividades: 2012
  • Investimento inicial: R$ 120 mil
  • Contato: [email protected]
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