Capital humano, psicológico, espiritual…: sua empresa pode estar negligenciando recursos que vão afetar os negócios no futuro

Pedro Ernesto Paro - 27 Maio 2020 Pedro Ernesto Paro, CEO da startup Humanizadas.
Pedro Ernesto Paro, CEO da startup Humanizadas.
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por Pedro Ernesto Paro

Em meio à pandemia do coronavírus, empresas se tornaram mais comprometidas em buscar práticas de negócios relacionadas a questões básicas de sobrevivência, como preocupação com a saúde dos colaboradores e suas respectivas famílias, a segurança financeira, a capacidade de manter os relacionamentos e a produção de bens e serviços.

É isso que descobrimos no relatório “Práticas Emergentes dos Negócios em Resposta à Crise da Covid-19”, uma parceria entre a Humanizadas, startup da qual sou CEO e cofundador, o Instituto Capitalismo Consciente Brasil e pesquisadores da USP de São Carlos.

Um dos reflexos desse movimento foi a disponibilização dos ativos e da infraestrutura das empresas aos seus colaboradores e à própria população. Para garantir a conexão, o processo de transformação digital foi acelerado, evidenciando a importância da qualidade das relações para os negócios.

Além da preocupação com questões urgentes, a pandemia trouxe uma pressão às finanças e ao futuro dos negócios, exigindo cortes de custos. Não podemos generalizar esse ponto para toda e qualquer empresa, mas, sob o contexto atual, é provável que algumas tenham pontos cegos em sua gestão.

Quando pensamos nos conceitos de complexidade e antifragilidade, visando construir organizações mais resilientes e duradouras, os capitais humano, cultural, psicológico, natural e espiritual, por exemplo, tendem a ser fundamentais como diferencial competitivo aos negócios quando a crise passar

Esses recursos, no entanto, podem estar sendo negligenciados neste momento, e isso deve afetar os negócios no futuro, pois serão valiosos para a inovação no cenário pós-crise.

A pandemia desestabilizou nossos sistemas de saúde, econômico, político e social — e está paralisando o mundo. Diversos negócio e famílias estão em perigo e, ao mesmo tempo, abrindo espaço para nascer uma sociedade diferente.

Em nossa história recente, também é a primeira vez na qual, coletivamente, experimentamos o capital social com tamanha força. Neste momento, podemos estar diante da crise que tanto necessitamos para entrar no próximo estágio evolutivo de nossas lideranças, organizações e sociedade.

Ainda não sabemos quando, mas, no futuro, a crise da Covid-19 vai terminar e o ambiente de negócios provavelmente não será mais o mesmo.

Outra revelação do relatório é que, frente aos desafios impostos por este período conturbado, uma série de empresas tidas como concorrentes passaram a adotar práticas mais conscientes e ações de cooperação em prol do bem coletivo. Uma atitude de empatia e atenção com o próximo

Para observar o fenômeno dessa mudança, comparamos as práticas emergentes dos negócios em resposta à crise da Covid-19 com as práticas das empresas de destaque na 1ª Edição da Pesquisa Empresas Humanizadas em 2019 (“Humanizadas-19”). O quadro a seguir revela a síntese do estudo.

Veja agora alguns exemplos práticos de empresas e instituições:

Capital Humano: aqui o foco é propiciar experiências que tenham significado e desenvolvimento humano para ampliar o inventário de know-how e competências do grupo. Como exemplos temos o acesso gratuito a cursos online em plataformas de empresas e instituições como Faber CastellITA, USP, FGV, Harvard, MIT, LinkedIn, Udemy e Sebrae, propiciando desenvolvimento e crescimento social a quem se interessar.

Capital Social: nesse âmbito temos como exemplo iniciativas de trabalho remoto e autogestão dos colaboradores adotadas na Unilever em suas operações em todo o mundo, e do Google, que além do home office em suas operações disponibilizou a ferramenta de reuniões virtuais Hangouts Meet para todos os usuários do G Suite e a possibilidade de gravar e salvar chamadas no Google Drive, entre outros.

Capital Cultural: nesse quesito, a atenção é direcionada para a qualidade das relações internas e externas, no processo de compartilhamento de experiências e senso de significado do grupo. Um exemplo é a disponibilização de conteúdos culturais na internet pelas empresas do setor de entretenimento e cultura, como as operadoras de TV por assinatura Sky, ClaroNet, Oi e Vivo, produtora de filmes Maria Farinha e a plataforma SPCine Play.

Capital Psicológico: medidas para elevar a capacidade dos indivíduos de pensar, refletir e ter acesso a múltiplos recursos psicológicos. Diante de um momento difícil, criar momentos virtuais para que as equipes compartilhem suas vitórias e alegrias diárias pode ser valioso. A preocupação com o aumento da ansiedade, da solidão e da depressão também tem gerado a oferta de consultas psicológicas online por plataformas como Zenklub e Psicologia Viva.

Capital Natural: avalia o impacto que a organização tem no meio ambiente e nos recursos naturais que ela atualmente utiliza ou que irá necessitar no futuro. A crise é um ótimo momento para repensar o modelo de negócio da empresa de maneira sistêmica, com atenção aos negócios regenerativos.

Capital Espiritual: foco na capacidade dos indivíduos de buscar, encontrar e acessar recursos que lhe tragam significado para aceitar o contexto atual e ativar seu potencial interno. Um exemplo é o Instituto Evoluir, que está montando uma agenda de bate-papos para incentivar o desenvolvimento integral do ser humano em temas como mindfulness, nutrição comportamental, autocuidado, yoga, rotina de aprendizado em casa e meditação.

Capital Saúde: diante do crescente aumento na demanda da rede pública de saúde, a Prefeitura de São Paulo e a Ambev uniram esforços com a Gerdau e o Hospital Israelita Albert Einstein para construir um novo centro de tratamento para a Covid-19, com 100 leitos, que atenderá ao público exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, diversos clubes de futebol, como Athletico Paranaense, Bahia, Botafogo, Ceará e Corinthians colocaram suas instalações à disposição das autoridades para ajudar a ampliar a infraestrutura de saúde pública no combate ao coronavírus.

Capital Manufaturado: muitas empresas estão colocando suas estruturas a serviço da população para ajudar a atender a demanda por materiais essenciais, tratamento de pacientes e auxílio a populações mais vulneráveis. Temos diversos exemplos como a produção e doação de sabonetes e álcool líquido ou em gel (Grupo Boticário, Natura, Grupo São Martinho, Ambev e usinas de cana-de-açúcar associadas à Unica, em parceria com a ABTLP e o Sindicom); a fabricação de respiradores para hospitais (Tesla, GM, Ford, Jaguar, Land Rover e Rolls-Royce e Vauxhall); fabricação e distribuição de máscaras de tecido para comunidades carentes do Rio de Janeiro (Reserva, Arremate, Cores Vibrantes, Suit Camisaria e EGM) etc.

Capital Financeiro: algumas empresas (como Santa Clara, Natura, MRV, Tetra Pak e Danone) estão se comprometendo a suspender demissões de colaboradores, reservando fundos de emergência ou ainda garantindo suporte temporário para aqueles que estiverem em situação de maior vulnerabilidade e exposição ao vírus. Além disso, os maiores bancos do país anunciaram a prorrogação dos vencimentos para 60 dias de dívidas de clientes pessoas físicas e micro e pequenas empresas.

Somos ondas do mesmo mar, folhas da mesma árvore e flores do mesmo jardim: ao chegarem na Itália, em abril, os médicos chineses deixaram essa mensagem para o mundo, convidando toda a humanidade a fazer uma profunda reflexão sobre o seu significado e sobre quanto tempo nós teremos para realmente compreendê-la.

Em suma, o momento indica uma oportunidade para fortalecer conexões, repensar o propósito e o modelo de negócio e identificar iniciativas estratégicas que possam gerar valor compartilhado para todos os stakeholders a médio e longo prazo. As empresas que conseguirem ter atenção a esses pontos poderão, além de sobreviver, sair dessa desaceleração econômica mais fortes do que nunca.

Para finalizar, gostaria de convidar as empresas que tenham bons exemplos para divulgar a participar da Edição 2020 da pesquisa “Empresas Humanizadas”, acessando o nosso site.

 

Pedro Ernesto Paro é especialista em Propósito, Cultura e Estratégia, consultor, pesquisador, palestrante e escritor, além de doutor em Engenharia de Produção pela USP São Carlos, onde coordena a Pesquisa Empresas Humanizadas Brasil. É também empresário, CEO e cofundador da startup de impacto Humanizadas, e diretor de Educação do Conselho Deliberativo do Instituto Capitalismo Consciente Brasil (ICCB).

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